Mesmo com pandemia, milicianos usam violência para extorquir dinheiro de moradores no Rio


Mesmo durante a pandemia do coronavírus, milhares de moradores de quatro bairros da Zona Oeste do Rio — Muzema, Tanque, Praça Seca e Itanhangá – são reféns do medo e obrigados a pagar uma taxa para milicianos.

Apesar da queda na renda de muitos cidadãos por causa da crise econômica, eles são alvos de abordagens violentas e acusam policiais militares de conivência.

 

A extorsão sob a justificativa de uma “taxa de segurança” tem data marcada na Muzema.

 

Na Praça Seca, outra área dominada por milicianos, cada família tem que pagar R$ 50 por mês para ter a falsa sensação de segurança. No caso dos comerciantes, a cobrança chega a R$ 300 por semana.

 

“Às vezes a gente deixa de comprar alguma coisa de importância para dentro de casa, às vezes tem que deixar de comer para poder pagar R$ 50 para eles”, disse um morador da área.

 

No Itanhangá, outro bairro dominado pelos milicianos, os moradores contam que os pagamentos passaram a ser obrigatórios há dois anos.

 

No Tanque, os milicianos têm usado a força e a violência para intimidar. Os devedores sofrem ameaças e até de tortura.

 

Denúncia de conivência
A prática de extorsão em algumas áreas da cidade acontece há anos, mas pesa ainda mais nos bolsos das famílias por causa da pandemia. Os moradores dizem que os milicianos agem livremente com a conivência de policiais militares e que já denunciaram várias vezes os crimes cometidos por eles.

 

“O batalhão sabe disso, fazem até a proteção, fingem que passam aqui para coibir e não coíbem nada. Não é feito nada”, destacou.

 

A Polícia Militar afirmou que os batalhões de área verificam as denúncias que chegam sobre as práticas criminosas, incluindo os casos de extorsão. A corporação informou também que as denúncias podem ser feitas à Corregedoria da PM.

 

A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas (Draco), disse que investiga a ação de milícias na Zona Oeste e pedem que todos que possuem informações entrem em contato pelo Disque Denúncia, no número (21) 2253-1177.

 

A antropóloga Jaqueline Muniz, da Universidade Federal Fluminense (UFF) afirma que o poder público sabe onde estão estas quadrilhas.

 

“Milicianos não estão escondidos e nem são invisíveis. Ao contrário, eles têm endereço e trabalho fixo no estado, são conhecidos, eles circulam entre autoridades, participam de festa VIP, fazem segurança de gente importante. Eles são bem relacionados, posam de cidadão de bem e são chegados aos poderes políticos pra que seus negócios possam funcionar”, explicou a antropóloga.

 

O sociólogo Ignácio Cano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), acrescenta que o descaso das autoridades deixa as populações cada vez mais vulneráveis.

 

“O estado fez investigações, desarticulou temporalmente ou parcialmente alguns grupos, mas não houve uma tentativa de recuperar o território. Ou você tem uma estratégia de recuperação do controle territorial ou você não consegue acabar com a milícia”, explicou o sociólogo.

 

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