Municípios do RJ apuram se houve aplicação de doses vencidas da AstraZeneca
Cruzamento de dados diz que 1.764 doses vencidas da vacina foram aplicadas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro; algumas cidades negam e culpam erro no sistema.
secretarias de Saúde de municípios do Rio de Janeiro, incluindo a capital, apuram se houve aplicação de vacinas da AstraZeneca contra a Covid-19 vencidas.
Um levantamento baseado no cruzamento de dados oficiais do governo federal apontou que ao menos 1.764 pessoas podem ter recebido doses vencidas na Região Metropolitana do Rio – 686 pessoas na capital e 852 em Nilópolis. Em todo o país, foram identificadas 26 mil doses do imunizante fora da validade aplicadas.
Dos 22 municípios da Região Metropolitana, 19 teriam aplicado doses da vacina fora da validade, segundo o levantamento – alguns deles, como Niterói, negam essa possibilidade e dizem que houve erro de digitação no sistema.
O levantamento indicando que milhares de doses vencidas foram distribuídas é dos pesquisadores Sabine Righetti, da Unicamp, e Estêvão Gamba, da Unifesp, e baseado no cruzamento de dados oficiais do governo federal. Os dados publicados nesta sexta-feira (2) pela Folha de São Paulo, aos quais o G1 também teve acesso, apontam que o problema ocorreu com doses de oito lotes da vacina.
O Ministério da Saúde diz que “caso alguma vacina seja administrada após o vencimento, essa dose não deverá ser considerada válida, sendo recomendado um novo ciclo vacinal, respeitando um intervalo de 28 dias entre as doses”. Além disso, ainda segundo a pasta, “o vacinado deverá ser acompanhado pela Secretaria de Saúde local”.
O lote da vacina é uma informação que deve constar no comprovante de aplicação.
O estudo
O levantamento aponta que foram aplicadas 25.935 doses fora do prazo em pelo menos 1.532 cidades. Na lista, Maringá (PR) aparece como a cidade com mais doses vencidas: 3.536. Em nota ao G1, a prefeitura negou a prática e associou o achado dos pesquisadores a erros no preenchimento de tabelas do Sistema Único de Saúde (SUS).
O Ministério da Saúde informou que “caso alguma vacina seja administrada após o vencimento, essa dose não deverá ser considerada válida, sendo recomendado um novo ciclo vacinal, respeitando um intervalo de 28 dias entre as doses”. Além disso, ainda segundo a pasta, “o vacinado deverá ser acompanhado pela Secretaria de Saúde local”.
O lote da vacina é uma informação que deve constar no comprovante de aplicação. De acordo com Sabine Righetti, uma das autoras do levantamento, as informações são do DataSUs e da Sala de Apoio à Gestão Estratégica (SAGE).
A equipe analisou a data de vencimento dos lotes de vacina que ainda estavam sendo ministrados no Brasil. Primeiro, foram encontrados 8 lotes da AstraZeneca que já venceram. Depois, esse dados foram cruzados com as datas de aplicação informadas.
Ainda, de acordo com a pesquisadora e jornalista, esses são os únicos lotes que já passaram da validade no país.
Secretaria estadual apura erro de registro
A Secretaria de Estado de Saúde informou, em nota, que todos os lotes enviados aos 92 municípios do estado estavam dentro do prazo de validade.
“O lote 41202Z005, com validade para 14.04.21, foi recebido pelo estado do Rio de Janeiro no dia 23.01.21 e distribuído aos municípios nos dias 23.01, 01.02, 02.02 e 24.02.21. Já o lote CTMAV506, com validade para 31.05.21, foi recebido pelo Estado em 26.03.21 e distribuído aos municípios no mesmo dia”.
A Subsecretaria de Vigilância e Atenção Primária à Saúde (SVAPS) apura com as secretarias municipais se houve algum erro de registro das doses no Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI).
Capital
De acordo com informações da Prefeitura do Rio, a Secretaria Municipal de Saúde recebeu todos os lotes de vacinas do Ministério da Saúde dentro do prazo de validade e fez a distribuição para as unidades de saúde.
A secretaria esclarece que, caso seja feita a constatação de que alguém recebeu uma dose vencida, o município fará a revacinação.
Os casos suspeitos de vacinação fora da validade, com data da aplicação da vacina, data de nascimento e primeiros dígitos do CPF das pessoas vacinadas, podem ser consultados nesse link.
Niterói
A Secretaria Municipal de Saúde esclareceu que não houve aplicação de vacinas fora da validade em Niterói.
O lote 4120Z005 da vacina AstraZeneca, que foi encaminhado para o município, com validade para 14/04/21 foi totalmente distribuído e usado no mês de fevereiro, dentro do prazo de validade.
Belford Roxo
“A Prefeitura de Belford Roxo informa que a Secretaria Municipal de Saúde fará uma pesquisa em seus arquivos para verificar o que aconteceu. Constatada a situação de vacina vencida, o órgão enviará ofício ao Ministério da Saúde informando o problema. A Secretaria enfatiza que essas pessoas que, porventura estiverem nesta situação, terão os casos avaliados e poderão receber uma outra dose, até porque elas estão registradas no sistema. Mas a Prefeitura aguardará as instruções do Ministério da Saúde.”
Caxias
A Prefeitura de Duque de Caxias, através da Secretaria Municipal de Saúde, informou que não foi notificada oficialmente sobre o assunto.
Itaboraí
“A assessoria de imprensa da Prefeitura de Itaboraí informou que a Secretaria Municipal de Saúde está apurando o caso. E esclarece que todos os imunizantes são conferidos quanto à validade antes de serem encaminhados às unidades de vacinação.”
Nilópolis
“A secretaria de Saúde de Nilópolis já instaurou a sindicância para apurar os fatos denunciados pela Folha de São Paulo. Imediatamente, a Secretaria de Saúde iniciou também um levantamento das pessoas que supostamente teriam tomado as doses das vacinas dos lotes que estariam fora da validade. Caso se confirme a aplicação de vacinas fora da validade, as pessoas serão imediatamente convocadas a tomar a nova dose do imunizante, no prazo de 28 dias, de acordo com o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19.”
São Gonçalo
“A Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil de São Gonçalo informa que vai checar o que aconteceu com as respectivas doses (15 de um único lote). Caso seja comprovado que houve aplicação de doses vencidas, o município irá procurar as pessoas vacinadas e tomar as medidas necessárias para garantir o processo de imunização das mesmas.
Mesquita
“A Coordenadoria de Imunização de Mesquita consultou o sistema e-SUS Notifica e verificou que todas as doses de AstraZeneca do lote 4120Z005 foram aplicadas entre os dias 26 de janeiro e 3 de fevereiro de 2021. Além disso, é importante frisar que existe um controle intenso na Secretaria Municipal de Saúde a respeito das datas de validade dos imunizantes e também das condições de armazenamento das mesmas.
Por último, percebe-se que se tratam de doses de um lote que foi entregue entre o fim de janeiro e o início de fevereiro no município, período inicial da campanha de vacinação, onde era importante imunizar o mais rápido possível os profissionais de saúde da linha de frente do combate ao coronavírus e os idosos, mas as entregas de remessas não eram constantes. Logo, não faria sentido guardar por tanto tempo essas doses, já que elas eram direcionadas à aplicação de D1 (primeira dose).”
São João de Meriti
“A Prefeitura de São João de Meriti, por meio da Secretaria de Saúde, informa que as datas de vencimento dos lotes das vacinas são vistoriados diariamente e separados cronologicamente pelas de menor para o maior prazo de validade. Sendo assim, não vacinamos a população com nenhum dos lotes vencidos divulgados.”
Magé
“Não houve aplicação de vacina vencida. Magé registra as doses aplicadas no Sistema SiPNI, do Ministério da Saúde, que passou por várias atualizações, em um desses processos, a data de aplicação foi alterada. A pessoa que tiver dúvidas, pode baixar o aplicativo Conecte SUS e comparar a dose que consta no sistema com a anotação no seu comprovante de vacinação, em caso de apresentar alteração, o cidadão pode ir ao Centro de Imunização para avaliar a situação.”
Doses não foram produzidas na Fiocruz
Em nota, a Fiocruz diz que os “referidos lotes não foram produzidos pela instituição”.
“Parte dos lotes (com numeração inicial 4120Z) é referente aos quantitativos importados prontos do Instituto Serum, da Índia, chamada de Covishield, e entregues pela Fiocruz ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde (MS) em janeiro e fevereiro deste ano. Os demais lotes apontados foram fornecidos pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas/OMS).
MP notifica Saúde do Rio
Ainda nesta sexta, o Ministério Público do Rio de Janeiro enviou um ofício à Secretaria Municipal de Saúde requisitando que a pasta esclareça em até 48 horas as supostas aplicações de 686 doses da vacina AstraZeneca vencidas. A informação foi antecipada pelo colunista Ancelmo Góis, de O Globo, e confirmadas ao G1 pelo MP.
Se de fato as vacinas foram usadas, o MPRJ solicitou que fossem indicadas quais as medidas que estão sendo adotadas para “sanar irregularidades no esquema vacinal, que deve ser amplamente divulgada à população”.
O MP também quer que a Saúde esclareça se erro de imunização foi incluído no e-SUS Notifica, “se houve acompanhamento com relação ao desenvolvimento de efeitos adversos, se a dose foi considerada como não válida e se houve a convocação de tais pessoas para revacinação”.

