Eleições 2020: veja os principais recados das urnas


Votação municipal mostrou força do Centrão e o enfraquecimento do PT e de candidatos apoiados por Bolsonaro. Também houve avanço tímido das mulheres e mais diversidade no Legislativo.

Como resultado das eleições municipais de 2020, os partidos do Centrão — a base política do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na Câmara dos Deputados — vão comandar quase metade dos municípios brasileiros. Por outro, a maior parte dos candidatos apoiados pelo presidente saiu derrotada.

 

Além disso, as câmaras municipais ganharam mais diversidade, com a eleição de mais parlamentares negros, mulheres e pessoas trans.

 

A força do Centrão
Os 10 partidos que formam o grupo Centrão vão administrar mais de 2,4 mil municípios, que equivalem a 45% das cidades brasileiras e concentram cerca de 35% da população (aproximadamente 73 milhões de pessoas).

Somente PP, PSD e PL vão comandar, ao todo, 1.685 municípios, números que podem aumentar a força política do Centrão junto ao governo federal.
Na ordem, os partidos que mais elegeram prefeitos este ano são: MDB (784), PP (685), PSD (654), PSDB (520) e DEM (464).

O colunista do G1 e da GloboNews Gerson Camarotti apontou a queda do discurso do ódio e a polarização extrema e a subida de candidatos de centro e centro-direita e do discurso de responsabilidade em relação à pandemia.
‘Nova política’ x ‘establishment’

No Rio, a vitória de Eduardo Paes (DEM), que já foi duas vezes prefeito da cidade (entre 2009 e 2017), aponta na direção da escolha de políticos tradicionais e já conhecidos do eleitorado.

Essa tendência também pode explicar a vitória esmagadora para a Prefeitura de Salvador de Bruno Reis (DEM), eleito em primeiro turno com o maior percentual de votos válidos entre todas as capitais do país (64,2%).

 

 

MDB, PSDB e PT sofrem perdas
A eleição consagrou o MDB como o partido com o maior número de prefeituras: 784. Mesmo com o 1º lugar neste ranking, a sigla teve uma forte redução de prefeitos eleitos — em 2016, eles eram 1.035.
O MDB também é o partido com mais vitórias para a prefeitura de capitais, tendo vencido em cinco delas: Boa Vista, Cuiabá, Goiânia, Porto Alegre e Teresina.

 

Já o PSDB é o partido que irá governar para o maior número de habitantes: 34 milhões de pessoas. Apesar disso, é também a sigla que teve maior perda de habitantes sob seu comando: 14,3 milhões de pessoas deixarão de ser governadas pela legenda.

 

Mesmo com essas reduções, o PSDB seguirá à frente da maior cidade do país, São Paulo. O atual prefeito, Bruno Covas, conseguiu se reeleger no segundo turno com quase 60% dos votos válidos, derrotando o candidato do PSOL, Guilherme Boulos, que obteve 40,62%.

 

O PT, por outro lado, pela primeira vez desde a redemocratização, não elegeu prefeito em nenhuma capital. O número de municípios com vitória do partido na escolha para a prefeitura caiu de 254 em 2016 para 183.

 

Para o colunista Gerson Camarotti, o PT decidiu fazer uma estratégia nessa eleição de lançar muitos candidatos e evitar mais alianças. Era uma iniciativa do partido inclusive para fazer uma defesa política do ex-presidente Lula, segundo Camarotti. Isso acabou abrindo espaço para novas forças na esquerda, como o PSOL, o PSB e o PDT, e deixou o PT esvaziado.

 

 

 

Somente 2 dos 13 candidatos a prefeito que o presidente Bolsonaro declarou apoiar foram eleitos. São eles: Gustavo Nunes (PSL), de Ipatinga (MG), e Mão Santa (DEM), de Parnaíba (PI).

 

No segundo turno, dos que possuíam apoio de Bolsonaro, Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio, e Capitão Wagner (PROS), em Fortaleza, não conseguiram se eleger.

 

Seis capitais tinham candidatos a prefeito apoiados por Bolsonaro (São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, Manaus e Belo Horizonte). Na capital paulista, o candidato do presidente, Celso Russomano (Republicano), ficou em 4º lugar, com 10,50% dos votos.

 

Para a colunista Julia Dualibi, o clima da eleição é influenciado em parte pelo humor que se tem em relação ao presidente. Ela avaliou como pontos que desfavorecem os candidatos apoiados por Bolsonaro o enfraquecimento do movimento de extrema direita do qual veio o presidente, a queda na aprovação do presidente mostrada em pesquisas na semana anterior ao primeiro turno e o fato de Bolsonaro estar sem partido.

 

Apenas uma mulher foi eleita prefeita em capital. Cinthia Ribeiro (PSDB) se reelegeu no primeiro turno para a Prefeitura de Palmas.

 

 

O cenário repete o de 2012 e o de 2016, quando Teresa Surita foi a única mulher a vencer uma prefeitura de capital, elegendo-se em Boa Vista (RR).
Por outro lado, na disputa pelo Legislativo houve um pequeno avanço quando o assunto é representatividade de gênero: o percentual de mulheres eleitas vereadoras subiu de 13,5% do total em 2016 para 16% neste ano.

 

Mesmo com aumento da presença de mulheres nas câmaras municipais, das 5.568 cidades do país mais de 900 não elegeram nenhuma vereadora mulher. Em outras mais de 1,8 mil cidades, apenas uma mulher foi eleita para a Câmara Municipal.

 

Por outro lado, todas as capitais do país elegeram mulheres para o cargo de vereador. Em 2016, havia uma capital que só elegeu homens para as vagas da Câmara Municipal: Cuiabá.

 

Recorde de candidatos negros
A eleição de 2020 foi marcada também pelo recorde de candidaturas de pessoas negras. 50% dos candidatos se declararam pardos ou pretos, raças que, juntas, formam os negros, segundo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

Apesar disso, o número de vereadores negros que vão ocupar vagas nas câmaras oscilou muito pouco. Em 2016, 42,1% dos eleitos se declararam negros; agora, são 44,7% dos mais de 58 mil vereadores eleitos.
Por outro lado, das 25 capitais, oito terão prefeitos autodeclarados negros a partir de 2021. O número é o dobro do que foi registrado nas últimas eleições municipais.

 

 

Reeleição em 10 capitais
Dos 13 prefeitos de capitais que tentaram reeleição, 10 conseguiram.
Em Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD) foi reeleito com votação expressiva ainda no primeiro turno: 784.307 votos (63,36% do total). Ele adotou uma postura rigorosa diante da pandemia e foi um dos primeiros prefeitos a determinar medidas de distanciamento social, o que agradou parte da população.

 

 

Para o colunista  Valdo Cruz, a eleição municipal deste ano mostrou que os prefeitos que se candidataram à reeleição conseguiram convencer o eleitorado de que fizeram uma boa administração. Os candidatos reeleitos se valeram de um eleitorado que optou pela segurança, por analisar bem se o seu prefeito fez uma administração boa ou razoável. Essa marca foi, segundo Valdo Cruz, diferente da eleição de 2018, quando o eleitorado buscava novos nomes.

 

Ainda segundo Valdo Cruz, para o PSDB, partido que teve o maior número de reeleitos (4) —incluindo na maior cidade do país, São Paulo —, este resultado é significativo para as pretensões dos tucanos de voltar a comandar o Palácio do Planalto.

 

 

Menos partidos nas câmaras
A eleições de 2020 também representaram a redução, em 73% das cidades, do total de partidos com candidato eleito nas câmaras municipais.
A redução, que afetou principalmente municípios menores, se deu pelo fim das coligações para eleições de cargos proporcionais.

 

O total de cidades que tinham até três partidos subiu de 262 para 1.565. Houve crescimento também, mas um pouco menor (17%), no total de cidades que tinham entre 4 e 6 partidos.

 

Em contrapartida, caiu a quantidade de municípios com mais de seis legendas nos Legislativos locais. Em 2016, essas cidades representavam 50% do total; agora, são apenas 18%.

 

A única capital sem eleição
Macapá foi a única capital que não teve eleições junto com as demais cidades. As votações foram adiadas para dezembro por causa da falta de luz e de segurança. O primeiro turno será em 6 de dezembro e, se houver, o segundo será em 20 de dezembro.

 

 

O TSE adiou a eleição em Macapá atendendo a um pedido do TRE-AP. Na ocasião, o tribunal regional argumentou que o adiamento era necessário em razão da crise no fornecimento de energia no município. As demais cidades do estado realizaram o pleito normalmente.

 

 

Abstenção recorde
A abstenção geral nas eleições foi recorde. No segundo turno ficou em 29,5% — em média, um a cada três eleitores não compareceu às urnas. Em 2016, nas últimas eleições municipais, 21,6% dos eleitores não foram votar no segundo turno.

 

 

 

No Rio de Janeiro, o número de eleitores que não votaram superou o número de votos dados ao candidato vencedor e foi maior que a média nacional (35,45%). Em São Paulo, foi maior que os votos dados ao candidato derrotado e superou também a taxa geral (30,81%). Goiânia registrou o maior índice de abstenção do país: 36,75%.

 

 

No primeiro turno deste ano, o índice ficou em 23,14%, maior que o registrado em 2016 (17,5%). Mas as capitais Porto Alegre (33,08%), Rio de Janeiro (32,79%), São Paulo (29,3%), Belo Horizonte (28,34%) e Salvador (26,46%) superaram a média nacional.

 

 

Os números da abstenção são maiores pelo menos desde 1996, quando o TSE começou a divulgar o número de eleitores que não compareceram para votar desde a implantação das urnas eletrônicas. O crescimento da abstenção nestas eleições já era esperado pelo TSE em virtude da pandemia.

 

 

Problemas técnicos na apuração e e-Título
No primeiro turno, houve lentidão na apuração de votos logo após o fim do pleito, que se estendeu ao longo da madrugada e da manhã de segunda-feira. Em Maceió, por exemplo, o resultado para prefeito saiu por volta de 9h. Já em São Paulo, a definição para os vereadores saiu por volta de 11h.

 

 

O ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou que um problema técnico provocou a lentidão na totalização dos votos. “Um dos núcleos de processadores do supercomputador que processa a totalização falhou e foi preciso repará-lo.”

 

 

Foram registrados ainda problemas no aplicativo e-Título no primeiro turno. Os eleitores reclamaram que o sistema estava lento e muitos não conseguiram usá-lo para justificar o voto nem no local de votação.

 

 

Segundo o TSE, a lentidão no e-Título ocorreu por causa da retirada da rede de um dos servidores da Justiça Eleitoral, feita em razão do ataque hacker que aconteceu em 3 de novembro ao sistema do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

 

 

Além disso, também houve uma tentativa de ataques aos sistemas da Justiça Federal no primeiro turno, que teria sido neutralizada, de acordo com o TSE. A Polícia Federal e o TSE informaram que isso também pode ter sido responsável pela instabilidade nos serviços do e-Título.

 

Candidato internado
Internado há mais de um mês por Covid-19, Maguito Vilela (MDB) conseguiu se eleger prefeito de Goiânia. Ele teve 52% dos votos válidos e venceu Vanderlan Cardoso (PSD).

 

 

O candidato estava sedado desde o 1º turno das eleições, mas a sedação foi reduzida no domingo (29), quando Maguito derramou lágrimas ao ser informado de que havia sido eleito.

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