Hospital de Bonsucesso foi cogitado para ser referência no combate à Covid-19, mas foi descartado por falta de condições


Prédio do hospital pegou fogo nesta terça-feira (27). Ano passado, relatório da DPU pedia explicações e alertava sobre problemas no combate a incêndios.

O Hospital Federal de Bonsucesso, na Zona Norte do Rio, que pegou fogo na manhã desta terça-feira (27), chegou a ser anunciado como unidade federal de referência no tratamento de pacientes com Covid-19 na cidade. Três pacientes morreram em decorrência do incêndio – duas das vítimas, ambas mulheres, tinham Covid-19.

 

 

Um dos blocos da unidade foi adaptado para receber os pacientes que precisassem de internação. Seriam de 150 a 200 leitos. O projeto, no entanto, não foi adiante por falta de pessoal.

 

O hospital, que tem mais de 70 anos de existência, é um dos mais importantes do Rio e tem enfrentado problemas no atendimento nos últimos anos. Um relatório da Defensoria Pública da União (DPU) do ano passado alertava para problemas na estrutura de combate a incêndios na unidade. O relatório foi enviado para o Ministério da Saúde para eventuais providências.

 

As causas do incêndio desta terça estão sendo analisadas e não se sabe se as chamas possuem alguma relação com os problemas apresentados pelo documento.

 

 

O relatório apontava hidrantes desativados, com mangueiras danificadas e sem qualificação para uso. O documento apontava também um alto risco de explosão e inoperância do sistema elétrico.

 

 

Ainda segundo o documento, durante a vistoria, o transformador da subestação principal registrou um superaquecimento a 148,6ºC, indicando um alto risco de explosão e inoperância do equipamento e risco para a vida dos operadores. Outro transformador também registrou temperatura de 128,6ºC. Também foram encontrados geradores que não atendiam as normas e que ofereciam risco de incêndio.

 

Vários equipamentos foram apontados pelos especialistas como obsoletos e oferecendo risco de curto-circuito e ameaçando a vida dos operadores.

 

 

A reportagem entrou em contato com o HFB, mas ainda não obteve resposta se alguma medida foi tomada em relação aos problemas apontados no documento.

 

 

O comandante-geral do Corpo de Bombeiros do RJ, coronel Leandro Monteiro, afirmou que a unidade não possui certificação de aprovação da corporação. Segundo Leandro Monteiro, o hospital tem duas notificações e dois autos de infração e não tem certificado de aprovação dos bombeiros.

 

Fogo no subsolo
Segundo a direção da unidade, o fogo começou no subsolo do Prédio 1 por volta das 9h45 e se alastrou pelo almoxarifado, onde fraldas eram guardadas. Nesse edifício ficam ainda enfermarias e salas de raio-X.

 

A brigada de incêndio do hospital chegou à enfermaria assim que as chamas começaram, dois andares abaixo, e providenciaram a remoção.

 

 

Pouco tempo depois do anúncio da unidade como referência no combate à Covid-19, em uma entrevista coletiva no dia oito de abril, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, assumiu que os hospitais federais do Rio de Janeiro não possuíam condições de atender os pacientes com coronavírus.

 

 

Ele reconheceu que faltavam médicos e disse que o hospital federal escolhido para virar referência não tinha condições de receber os pacientes e deveria ficar com outros atendimentos.

 

 

Mandetta reconheceu que concursos públicos não são feitos há anos e a mão de obra da unidade envelheceu.

 

Logo após as declarações do ministro, o Sindicato dos Médicos divulgou uma nota de repúdio sobre as condições dos hospitais federais no Rio.

 

 

A nota prestava solidariedade aos funcionários e aposentados da rede federal e diz que o sindicato iria estudar medidas jurídicas para reparar perdas e danos dos servidores.

 

 

O sucessor de Mandetta, Nelson Teich, chegou a vistoriar a unidade em uma visita ao Rio de Janeiro e se encontrou com a direção. No mesmo dia ele visitou os hospitais de campanha do Riocentro e do Maracanã.

 

 

Uma denúncia veiculada pelo Jornal Nacional ainda em abril mostrou que a unidade tinha leitos ociosos e alguns setores estavam vazios. O hospital prometeu 177 leitos, mas só 18 estava ocupados. Haviam salas com leitos vazios e respiradores.

 

 

Em maio, juíza federal Carmen Silvia Lima Arruda intimou o Ministério da Saúde a destituir a direção do Hospital Federal de Bonsucesso e disse que o hospital está sendo “omisso” durante a pandemia.

 

 

Ela cobrou a abertura de leitos nos seis hospitais federais do Rio.

“Sequer foi realizada uma compra de teste de Covid”, criticou.

 

Outros problemas
Em fevereiro, a emergência da unidade estava aberta, porém com atendimento restrito a casos graves por conta da falta de profissionais. Na época, a direção afirmou que a unidade recebia grande número de atendimentos por conta da localização.

 


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