Programa de refugiados no RJ atendeu em sete meses quase o dobro de pessoas que em todo o ano passado


Ao todo, 5.082 pessoas receberam ajuda, sendo a maioria da Venezuela. Em 2019, a Pares Cáritas RJ atendeu 2.593 pessoas.

O programa de refugiados da Cáritas no Rio de Janeiro atendeu em sete meses quase o dobro de pessoas do que em todo o ano passado. De janeiro a julho deste ano, a Pares Cáritas RJ atendeu 5.082 pessoas, sendo a maioria venezuelanos. Em 2019, 2.593 pessoas receberam ajuda.

 

Antes da pandemia, a instituição lidava de forma diluída com questões de educação, saúde, documentação, trabalho, moradia e sobrevivência básica. Agora, a situação, segundo Aline, é de “desespero”, com muitas pessoas passando fome e sem condições de pagar o aluguel para não serem despejadas.

 

Documento publicado pelo Comitê Nacional para os Refugiados, em parceria com a Acnur e o Ministério da Justiça e Segurança Pública, revela que, de janeiro de 2017 a junho de 2020, o estado do Rio recebeu 936 solicitações de refúgio. Destas, 579 foram reconhecidas.

 

A coordenadora explica que o refugiado que chega ao país vem em busca de uma nova chance e, como qualquer cidadão brasileiro, precisa pagar impostos.

 

“Aqui ele também constrói, crescemos e aprendemos todos juntos. Da mesma maneira que ele paga os impostos, tem os mesmo direitos básicos e precisa de oportunidades de trabalho”.

 

Da Venezuela para a favela
O medo de não conseguir pagar aluguel e ter comida em casa tem sido a realidade da venezuelana Andreina Coromoto Arzolay Morgado. Mãe solteira, há dois anos ela resolveu sair de uma cidade do interior de Delta Amacuro, sozinha, em busca de melhores oportunidades para ela e sua família.

 

 

Foram 18 horas de viagem em um ônibus até a fronteira. Depois, outro ônibus para Manaus. De lá, um avião com escala em Brasília e cujo destino final era o Rio de Janeiro. O local foi escolhido por se tratar de uma cidade grande, “com mais chances de emprego”.

 

Mas o que Andreina não sabia é que o local onde “não precisaria pagar água, luz e o aluguel era barato'” seria na zona de risco de uma favela carioca.

 

Em pouco tempo, Andreina conseguiu um trabalho para um de seus irmãos em um sítio em Rio das Pedras. Ele encarou a longa viagem e ficou seis meses no emprego, “trabalhando como um escravo”, como ela mesmo descreve.

 

 

Na luta para ter a família por perto, a venezuelana começou a vender doces e contou a ajuda de várias pessoas. E depois que os pais venderam a casa e todos os bens na Venezuela, eles conseguiram se reunir no Rio.

 

Atualmente, 14 pessoas vivem juntas em uma casa com três quartos e um banheiro. “É difícil porque temos seis crianças aqui e eu tenho medo de deixá-los sair para brincar fora de casa, mas pelo menos estamos todos juntos”.

 

 

Com a pandemia, se foram as oportunidades de conseguir um trabalho.

“Nós imigrantes não somos recomendados para vagas”, diz. Desde que chegou ao Rio, Andreina nunca trabalhou com carteira assinada e conta que não teve uma boa experiência como diarista.

 

 

Apenas um dos irmãos tem conseguido alguns trabalhos em Maricá, como pedreiro.

 

Na Venezuela, ainda estão alguns tios, primos e os avós. Eles relatam que tem sido cada vez mais restrito o acesso a comida, serviços de saúde e gasolina.

 

 

“Um litro de gasolina custa uns R$ 25. Na verdade, lá é tudo em dólar, então U$S 5. No interior, as pessoas estão sem gás para cozinhar, não conseguem ter acesso ou pagar pela gasolina. Pessoas estão passando fome e sem medicamentos. Quem tem câncer não consegue fazer tratamento”, relata.

 

 

Ainda na Venezuela, Andreina fez curso de secretária executiva, trabalhou em escritórios, foi vendedora, diarista e teve trabalhos variados. Ela busca uma outra vaga como diarista e acredita que a dificuldade é ainda maior por não falar português.

 

O objetivo, segundo ela, é conseguir um espaço maior e mais seguro para morar com a família e se estabelecer de vez na cidade.

 

Trabalho voluntário nos Jogos Rio 2016
Enquanto atletas, turistas e cariocas se voltavam para a Olimpíada no Rio de Janeiro em 2016, Frank Olmos encarava a maior maratona da sua vida.

 

Disposto a deixar para trás a vida de professor de ensino médio em Caracas, a família e muita dificuldade financeira, ele cruzou a fronteira da Venezuela com o Brasil de ônibus com tudo que tinha: US$ 10 no bolso, uma dúzia de arepas — pão de milho típico da Venezuela — e sucos de caixinhas, a alimentação dos próximos dias. A rota escolhida foi Caracas, Puerto Ordaz, Boa Vista, Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro.

 

Frank se inscreveu para ser voluntário na Olimpíada. Pelas redes sociais conseguiu uma acomodação gratuita na Cidade Maravilhosa e a ideia era ir para não voltar.

 

No caminho, descobriu limitação de peso no voo entre Manaus e Rio de Janeiro e teve que deixar a maior parte dos pertences na rodoviária de Roraima.

 

No Rio, foi recebido pelo homem que lhe prometera acomodação. Na casa, conviveu com outros voluntários, que partiram ao fim dos jogos olímpicos.

 

Frank permaneceu na cidade, procurou a Pares Cáritas RJ e entrou com a solicitação do status de refugiado, que demorou três anos e meio para ser aprovada.

 

“Logo que eu cruzei a fronteira, me deram um documento com autorização de saída de apenas cinco dias, mesmo eu dizendo que seria voluntário nas Olimpíadas. Eu sabia que precisava pedir o refúgio assim que chegasse”, recorda.

 

Durante os Jogos, acabou fazendo bons contatos e conseguiu seu primeiro emprego como assistente administrativo.

 

“Consegui alugar um imóvel e trouxe o meu irmão da Venezuela. Depois ele conseguiu trazer a namorada e nós moramos os três juntos aqui”, comenta.

 

O irmão de Frank tem hidrocefalia e a cunhada paralisia. Ele ainda perdeu uma irmã pouco depois de chegar ao Rio.

 

Em fevereiro deste ano, Frank conseguiu uma bolsa parcial para estudar Marketing na Faculdade Cândido Mendes. Ele diz que o processo de matrícula e o reconhecimento da documentação estrangeira foram demorados, mas já conseguiu concluir o primeiro semestre.

 

Atualmente, ele trabalha como consultor de viagem em uma empresa de turismo.

Ele diz que a pandemia agravou a situação na Venezuela.

 

“É quase um salário e meio para comprar uma cartela de ovos e são dois salários para comprar carne. Tem restrição ao transporte público e a ordem é que uma semana ninguém pode sair de casa nem para trabalhar e na outra tudo abre e é liberado. Nas semanas de restrição, quem trabalha em serviço essencial precisa de uma carta do governo para usar o transporte público”.

 

 

O irmão e a cunhada ainda aguardam a aprovação do status de refugiados. Eles planejam entrar em algum plano do governo para comprar o primeiro imóvel próprio no Rio de Janeiro.

 

43 mil refugiados no Brasil
Segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados 2020, o Brasil tem 43 mil pessoas reconhecidas como refugiadas, sendo 38 mil venezuelanos — 88% do total.

 

Este número é sete vezes maior que o registrado no início de dezembro de 2019, quando o país acolhia cerca de 6 mil pessoas em situação de refúgio.

 

Ainda segundo o Comitê, o aumento se dá pelas aprovações de pedidos feitos para venezuelanos em dezembro de 2019, janeiro de 2020 e abril de 2020, quando filhos de refugiados venezuelanos também foram reconhecidos.

 

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