Movimento cai até 95% em restaurantes do Centro do Rio; esvaziamento aprofunda a crise


Mesmo após a autorização para a reabertura do comércio, estabelecimentos não conseguem retomar faturamento. Empresas fechadas, desemprego e funcionários em trabalho remoto são as explicações para a queda na circulação de pessoas na região.

Pessoas indo e voltando do trabalho, uma multidão andando pelas calçadas e filas nas portas de bares e restaurantes. Essas cenas já não fazem mais parte do cotidiano dos cariocas que frequentam o Centro do Rio de Janeiro, mesmo com o afrouxamento das medidas de isolamento social.

 

Atualmente, quem passa pela região observa portas fechadas, empresas sem funcionários e mesas vazias. A nova realidade do “coração” econômico da cidade é de abandono. Alguns estabelecimentos apresentam queda no faturamento de até 95% e muitos tiveram que fechar as portas. Quem não faliu, está sendo forçado a se reinventar.

 

No tradicional restaurante Cosmopolita, na Lapa, a situação é difícil para os donos. Mauro da Silva Santos, de 42 anos, contou que a casa vendia cerca de 200 refeições por dia antes da pandemia do novo coronavírus. Depois que eles voltaram a funcionar, em julho, o restaurante ainda não passou de 10 clientes por dia.

 

Fundado em 1926 por imigrantes espanhóis, o local atravessou mais de 90 anos atendendo bem seus frequentadores. Foi lá que nasceu o famoso “filé à Oswaldo Aranha”, em homenagem ao advogado, político e diplomata Oswaldo Euclides de Sousa Aranha, que entre as décadas de 1930 e 1940, costumava almoçar no restaurante.

 

Dificuldades antes da pandemia
Reconhecido pelos mais antigos como “senadinho” desde a época que o Rio era capital da República, o Cosmopolita já vinha atravessando momentos difíceis antes da pandemia.

Por muitas vezes esteve perto de fechar as portas em definitivo. Contudo, um investidor, que preferiu se manter anônimo, decidiu apostar na força da tradição e bancou uma reforma na casa.

 

Segundo Mauro, a esperança é que a vacina contra a Covid-19 possa trazer as pessoas novamente para as ruas do Centro e fazer o movimento voltar a crescer.

 

Outro restaurante-símbolo da cidade fecha
A esperança que mantém o Cosmopolita de pé não foi capaz de segurar a existência de outro símbolo da cidade maravilhosa.

 

O restaurante Esquimó, na Travessa do Ouvidor, próximo ao prédio onde funcionava a antiga Bolsa de Valores do Rio, fechada em 2002, não resistiu ao esvaziamento do Centro da cidade.

 

Na opinião de Rafael Casales Duarte, sócio e filho do fundador do restaurante, a região já vem sofrendo com o abandono e o desemprego há muito tempo.

 

Segundo ele, os restaurantes que ainda estão abrindo as portas, estão fechando o mês no prejuízo. “Quem está vendendo 20 refeições por dia tá fazendo mágica”, resumiu.

 

Com o fim do Esquimó, o Rio de janeiro perdeu o primeiro restaurante no Brasil a abraçar o conceito de prato feito. Foi lá que nasceu o popular “PF”, a abreviação.

 

15% dos bares do Rio fechados
Um estudo feito pelo Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio) estima que 15% dos cerca de 10 mil estabelecimentos do setor na cidade já tenham sido fechados. O órgão acredita que 1/3 das empresas não tenha condições de chegar aberta até o fim do ano.

 

Bares e restaurantes de todo o estado já acumulam 23.708 postos de trabalho fechados durante a pandemia de coronavírus, considerando o período de março a maio de 2020.

 

Segundo dados do SindRio, o Rio foi a segunda capital brasileira que perdeu mais vagas no setor – 14.469 -, atrás apenas de São Paulo (27.891).

 

O número levantado pelo sindicato inclui também outras regiões da capital e até do estado. Mas a situação parece ser ainda pior no Centro do Rio.

Quem trabalha por lá diariamente diz que muitas empresas adotaram o esquema de trabalho remoto, com funcionários ficando em “home office”. A nova realidade tirou ainda mais as pessoas do centro econômico da cidade.

 

Adaptando-se à realidade
A maioria dos restaurantes do Centro garantia seu faturamento na hora do almoço, quando milhares de pessoas deixavam os escritórios e salas comerciais para comer e comprar.

 

“Muitas empresas estão adotando o home office, algumas falam em manter mesmo no ano que vem. Isso para quem trabalha com almoço no Centro é péssimo”, comentou Roane Veríssimo, sócia do restaurante Estilo Carioca.

 

Roane era jornalista e, em 2016, decidiu largar tudo para realizar o sonho de empreender. Ela e o marido, Anderson Casalta, juntaram as economias e decidiram apostar em um restaurante no mais novo polo gastronômico e cultural da cidade, o Porto Maravilha.

 

A estratégia parecia ser certeira, afinal, o futuro restaurante ficaria a poucos metros do Museu do Amanhã e do Boulevard Olímpico, áreas que ficaram conhecidas no mundo inteiro por conta dos Jogos Olímpicos de 2016, quando cariocas e turistas lotaram cada centímetro da região.

 

Tudo caminhava bem para o casal de empresários, até que veio a pandemia do novo coronavírus, as regras de isolamento social e o aumento do desemprego.

 

Roane e Anderson passaram aquele final de semana de março fazendo contas e decidiram que o único caminho possível para manter as contas em dia era apostar em um novo mercado. O Estilo Carioca passou a vender comida congelada.

 

A mudança de rumo e a crise fizeram os patrões demitirem 12 funcionários e reduzirem os salários de outros dois. Mas essa era a melhor maneira de continuarem produzindo durante a pandemia.

 

O plano de negócios do casal permite que eles atendam uma área maior do que conseguiam atender antes. Com o serviço de delivery, eles passaram a entregar comidas congeladas no Centro, na Zona Sul e na Barra da Tijuca.

 

Uma vez por semana, os dois e mais um cozinheiro vão para o restaurante, trabalham por cerca de 18h e produzem todas as refeições que vão vender nos dias seguintes.

 

O planejamento também só deu resultado por conta da solidariedade e parceria da proprietária do imóvel onde fica o restaurante. O combinado entre eles foi que o aluguel só voltaria a ser cobrado depois que o Estilo Carioca voltasse a receber o público.

 

Mesmo assim, segundo eles, o faturamento não é nem perto do que era com o restaurante funcionando.

 

Outro problema, segundo Roane, é o mercado imobiliário inflacionado em alguns pontos do Centro do Rio. Na Região Portuária, por exemplo, ela acredita que o setor apostou que muitas empresas se instalassem por lá depois das Olimpíadas.

 

“Desde 2016, o Centro deu uma esvaziada boa. Muitos prédios vazios e empresas fechadas. O setor imobiliário inflacionou os preços de aluguel e a Região do Porto não conseguiu ser o que poderia ser. Infelizmente”, argumentou Roane.

 

A empresária contou também que seu sonho é voltar com o restaurante, mas que o futuro é muito incerto. A falta de perspectiva com relação a retomada das atividades no Centro, o trabalho presencial nas empresas da região e a dúvida sobre a vacina contra a Covid-19, deixam os dois no escuro para tomar qualquer decisão de longo prazo.

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