Exame toxicológico para CNH: quais as drogas dão positivo e como é feita a detecção?


Em dezembro de 2025, o Congresso Nacional aprovou a exigência do exame toxicológico para a emissão da primeira CNH nas categorias A e B. Com a mudança, quem pretende tirar a habilitação precisa apresentar resultado negativo em um teste que identifica o uso de drogas nos últimos meses.

 

Veja como o exame funciona e o que pode levar à reprovação.

 

Com a ampliação da exigência do exame toxicológico, cresce a atenção sobre o que, de fato, reprova no teste. Nos levantamentos realizados entre 2021 e 2025, a cocaína lidera a lista de substâncias mais detectadas em exames toxicológicos no Brasil feitos com motoristas das categorias C, D e E, segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).

 

O número elevado, no entanto, não significa necessariamente que a droga seja a mais consumida. Especialista explica que um único uso pode gerar vários “rastros” no organismo, todos identificados pelo teste.

 

 

O que reprova no exame toxicológico, na prática?
O exame toxicológico da CNH é organizado por classes de substâncias, que reúnem diferentes compostos analisados em conjunto. Se qualquer uma dessas substâncias for detectada dentro da janela de análise, o resultado é considerado positivo.

 

 

Veja abaixo as classes e exemplos de substâncias detectadas

Substâncias detectadas no exame toxicológico

Classe Substâncias
Anfetaminas Rebite, Ecstasy (MDMA) e Bolinha
Canabinoides Maconha, Haxixe, Skunk
Opiáceos/ Opioides Morfina, Heróina, Ópio bruto e Oxicodona
Cocaína Cocaína, Crack, Bazuca
Outros Mazindol (remédio para emagrecimento)
Fonte: Aryadyne Bueno- médica com atuação em laboratórios de exames toxicológicos

 

Como é feito o exame?
O exame toxicológico de larga janela utiliza amostras de cabelo, pelos ou unhas e identifica o consumo de substâncias psicoativas em um período retrospectivo mínimo de 90 dias, podendo chegar a 180 dias

 

O processo envolve coleta em postos credenciados, análise laboratorial e emissão de laudo rastreável. A confiabilidade é garantida por normas técnicas, cadeia de custódia e procedimentos que evitam contaminação ou adulteração da amostra.

 

 

“Cabelos e unhas funcionam como ‘arquivos biológicos’, permitindo detectar o uso de drogas semanas ou até meses após o consumo, com mais confiabilidade do que exames de sangue ou urina”, afirma Aryadyne Bueno, médica que atua em um laboratório de exames toxicológicos no Paraná.

 

 

Etapas do exame
Agendamento e escolha do laboratório credenciado
Coleta da amostra biológica
Envio da amostra ao laboratório
Análise laboratorial
Emissão do laudo
As substâncias que mais aparecem nos exames (2021-2025)
Cocaína: 462.643 (cerca de 87%)
Opiáceos: 37.797 (7%)
Anfetaminas: 21.938 (4%)
Maconha: 10.525 (2%)

 

A predominância da cocaína nos exames está ligada à forma como a droga é metabolizada pelo organismo. Após o consumo, a substância se transforma em diferentes metabólitos que permanecem depositados no cabelo por longos períodos.

 

 

“Após o consumo, o organismo metaboliza a cocaína em diferentes substâncias, como a benzoilecgonina, a norcocaína e o cocaetileno, este último gerado especificamente quando há o uso combinado com o álcool.

 

Mesmo após a eliminação da droga pelo corpo, esses metabólitos continuam depositados no cabelo ou pelos, permitindo que os exames identifiquem diversos derivados de uma mesma substância.

 

Por isso, a presença desses metabólitos confirma a exposição à droga, mas não deve ser confundida com múltiplos episódios de uso”, afirma Lucas Sanches, coordenador de produção do laboratório de exames toxicológicos Chromatox.

 

 

As anfetaminas aparecem entre as substâncias mais detectadas e são frequentemente associadas ao uso de estimulantes conhecidos como “rebites”, utilizados para tentar manter o estado de alerta em viagens longas.

 

 

Os dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que, entre 2021 e 2025, foram realizados quase 18,5 milhões de exames toxicológicos em motoristas profissionais. Desse total, 223 mil tiveram resultado positivo, o equivalente a pouco mais de 1,2%.

 

No mesmo período, porém, foram registradas mais de 530 mil detecções de substâncias, número superior ao de testes positivos porque um único exame pode identificar mais de um composto ligado à mesma droga.

 

 

Como isso funciona em situações reais?
Usei maconha em uma festa há dois meses. Vou reprovar?
Pode reprovar, o uso recreativo de canabinoides (como a maconha/THC) pode aparecer no exame toxicológico, mesmo em pequenas quantidades, porque os metabólitos da substância ficam incorporados à queratina presente em cabelos, pelos e unhas. O exame tem janela mínima de detecção de 90 dias.

 

 

Usei cocaína ocasionalmente. Aparece?
Sim. A cocaína e seus metabólitos costumam ser detectados no exame de larga janela. Mesmo uso recreativo ou ocasional pode ser identificado, já que o exame não mede quantidade exata, apenas a presença da substância. A sensibilidade dos métodos laboratoriais (cromatografia e espectrometria de massa) permite detectar níveis muito baixos.

 

 

Quanto tempo a cocaína fica no cabelo?
O exame analisa um histórico mínimo de 90 dias, independentemente de a droga ter sido usada uma única vez ou em poucas ocasiões.

 

 

O exame detecta álcool?
Não. O álcool não é pesquisado no exame toxicológico exigido para a CNH.

 

 

Remédios podem reprovar no teste?
Entre os medicamentos, o principal que pode levar à reprovação é o mazindol, um emagrecedor com efeito estimulante. Ele faz parte das substâncias pesquisadas no exame toxicológico da CNH.

 

 

Especialistas orientam que candidatos à habilitação informem ao laboratório sobre o uso de medicamentos e apresentem prescrição médica, embora a presença do mazindol ainda possa resultar em exame positivo.

 

Segundo Aryadyne Bueno, se o exame detectar mazindol, o resultado tende a ser considerado positivo, já que a substância integra a lista de drogas monitoradas pelo Contran/Senatran.

 

 

O mazindol é um estimulante do sistema nervoso central, estruturalmente relacionado com a anfetamina, e, por isso, é identificado no exame. O condutor que testar positivo não poderá obter ou renovar a CNH até apresentar resultado negativo, uma vez que o uso da substância pode afetar o sistema nervoso central, causando insônia, agitação, aumento da pressão arterial e alteração dos reflexos.

 

 

Mitos e tentativas de burlar o exame
1.  Raspar o cabelo evita o exame.

O laboratório pode usar pelos ou unhas.

2-  Urina ou sangue podem ser utilizados para fazer o exame.

Não. O uso de cabelo e unhas se deve à capacidade dessas estruturas de armazenar substâncias químicas por longos períodos.

3- Dá para “limpar” o organismo em semanas com água ou chás.

A janela de detecção é de meses e não é influenciada por hidratação ou mudanças na dieta.

4- Remédio comuns podem dar positivo

 

 

Remédios de uso habitual não são analisados; a principal exceção é o mazindol.

O que a nova exigência do exame toxicológico significa para futuros motoristas.

 

A mudança foi aprovada por meio do Projeto de Lei nº 15.153/2025. Até então, a obrigatoriedade valia apenas para condutores das categorias C, D e E, que incluem veículos de carga, transporte coletivo e combinações com unidades acopladas.

 

 

Segundo estimativa da Chromatox, laboratório de exames toxicológicos credenciado pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), a nova regra deve gerar entre 1,3 milhão e 2 milhões de novos exames em 2026, um crescimento superior a um terço em relação ao mercado atual.

 

 

“O exame toxicológico é uma ferramenta importante para aumentar a segurança viária, prevenir acidentes e garantir que condutores não estejam sob efeito de substâncias psicoativas. É uma medida de proteção não só ao motorista, mas também a passageiros, pedestres e à sociedade”, afirma Aryadyne Bueno.

 

Onde realizar o exame?
O exame deve ser feito em laboratórios credenciados pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). A Lei nº 15.153/2025 também permite que clínicas médicas de aptidão física e mental tenham postos de coleta.

 

 

A validade do exame é de 90 dias a partir da coleta. Segundo a Associação Brasileira de Toxicologia (Abtox), o custo varia entre R$ 110 e R$ 250, com prazo médio de até 10 dias úteis para o resultado.

 


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