Unesco avalia obra de tirolesa no Pão de Açúcar; possíveis irregularidades podem custar o título de patrimônio mundial
Obra no morro segue embargada pela Justiça Federal, após suspeitas de perfurações irregulares. Empresa pretende recorrer da decisão. Segundo o Iphan, a GeoRio avaliou que as intervenções não representam risco geológico.
A Unesco, braço das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura, está atenta às denúncias de possíveis irregularidades na construção de uma tirolesa nos morros da Urca e do Pão de Açúcar, na Zona Sul do Rio.
A obra segue embargada pela Justiça Federal desde junho, após suspeitas de perfurações irregulares na rocha. Caso as denúncias sobre uma suposta intervenção ilegal no local sejam confirmadas, o Pão de Açúcar pode perder o título de Patrimônio Mundial, honraria concedida pela Unesco em 2012.
A proposta da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, a mesma que administra os bondinhos, é instalar quatro cabos para a prática da tirolesa, entre o Pão de Açúcar e o Morro da Urca. Os cabos ficariam paralelos aos bondinhos.
De acordo com o procurador geral do Ministério Público Federal, Sérgio Suiama, a empresa responsável pela obra fez escavações na rocha que não estavam previstas no projeto inicial.
“Houve corte ilícito da rocha, um volume de 127 metros cúbicos. O Iphan ao invés de autuar, autorizou continuidade da obra (…) Há um dano a paisagem porque a área construída vai ser ampliada, apesar da empresa dizer de forma contraria, as próprias plantas mostram que haverá acréscimo de área construída, modificação na paisagem e modificação na rocha”, explicou Suiama.
A decisão pela paralisação das obras aconteceu por conta de supostas irregularidades na perfuração da rocha. A medida também determinou a suspensão dos efeitos da autorização dada pelo Iphan para o projeto.
Título em risco
Em contato com o g1, a Unesco Brasil confirmou que entrou em contato com as autoridades brasileiras para pedir esclarecimentos sobre as obras no Pão de Açúcar
De acordo com o órgão internacional, o governo respondeu algumas questões e a Unesco pediu novas informações.
A Unesco informou ainda que seguirá conduzindo o debate através do diálogo técnico e que pretende identificar “soluções sustentáveis para preservar e salvaguardar os valores do sítio do Patrimônio Mundial”.
Contudo, segundo o órgão, “se o problema permanecer sem solução, a questão poderá ser levada posteriormente ao conhecimento do Comitê do Patrimônio Mundial, que é o órgão soberano que decide sobre o status dos sítios do Patrimônio Mundial”.
A preocupação da Unesco com o avanço das obras no Pão de Açúcar começou no mês passado, após um alerta enviado pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), órgão consultivo da Unesco para a implementação da Convenção do Patrimônio Mundial.
Para Rafael Winter, um dos membros da Icomos no Brasil, as intervenções nos morros cariocas podem “afetar o valor de patrimônio mundial inscrito na Unesco”.
“Esse é o principal problema porque esse projeto deveria ter sido enviado pra Unesco antes de ter começado. A Unesco tem umas normas bem rígidas e bem claras de como proceder esse patrimônio mundial (…) Você tem o Icomos que avisa a Unesco que tem uma obra com potencial para danificar o patrimônio mundial e a Unesco começa um procedimento de avaliação desse impacto sobre o patrimônio mundial”, explicou Rafael.
Novo laudo descarta irregularidades
O presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Leandro Grass, disse ao RJ1 nesta terça-feira (18), que um novo laudo técnico produzido pela GeoRio constatou que as obras para a construção de uma tirolesa entre os morros do Pão de Açúcar e da Urca não representam risco geológico para a estrutura natural.
Segundo Grass, o parecer foi entregue ao Iphan na noite da última segunda-feira (17). O documento descarta a presença de “rupturas” ou “mutilação geológica” no maciço do Pão de Açúcar.
“A conclusão da GeoRio, diante das manifestações da comunidade, a partir da análise técnica da área de licenciamento do órgão, é que não há deflagração de rupturas do maciço da região de abrangência. Em resumo, ela está refutando esse argumento de que há o que se chama de mutilação geológica, e por consequência um possível comprometimento do morro. Esse parecer é da instituição municipal que tem a competência de analisar esse aspecto”, comentou o presidente do Iphan.
O que dizem os citados
Durante as investigações do Ministério Público Federal, a empresa responsável pelo projeto informou que as obras começaram em setembro de 2022, assim que as licenças e autorizações foram emitidas pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e do Iphan.
Também segundo a empresa, a GeoRio constatou a ausência de qualquer risco estrutural ou instabilidade nas obras para a instalação da tirolesa.
g1
ge
gshow
O Globo
ASSINE JÁ
ENTRAR ›
MENU
Rio de Janeiro
fique por dentro
Concursos
Guerra na Ucrânia
Recorde de calor
Caso Prior
Barbie
Unesco avalia obra de tirolesa no Pão de Açúcar; possíveis irregularidades podem custar o título de patrimônio mundial
Obra no morro segue embargada pela Justiça Federal, após suspeitas de perfurações irregulares. Empresa pretende recorrer da decisão. Segundo o Iphan, a GeoRio avaliou que as intervenções não representam risco geológico.
Por Amanda Prado, Diego Haidar e Raoni Alves, RJ1 e g1 Rio
18/07/2023 15h31 Atualizado há 14 horas
Obra de tirolesa no Pão de Açúcar foi analisada, mais uma vez, pela Geo Rio
Obra de tirolesa no Pão de Açúcar foi analisada, mais uma vez, pela Geo Rio
A Unesco, braço das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura, está atenta às denúncias de possíveis irregularidades na construção de uma tirolesa nos morros da Urca e do Pão de Açúcar, na Zona Sul do Rio.
A obra segue embargada pela Justiça Federal desde junho, após suspeitas de perfurações irregulares na rocha. Caso as denúncias sobre uma suposta intervenção ilegal no local sejam confirmadas, o Pão de Açúcar pode perder o título de Patrimônio Mundial, honraria concedida pela Unesco em 2012.
A proposta da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, a mesma que administra os bondinhos, é instalar quatro cabos para a prática da tirolesa, entre o Pão de Açúcar e o Morro da Urca. Os cabos ficariam paralelos aos bondinhos.
Obra da tirolesa entre o Pão de Açúcar e o Morro da Urca preocupa ambientalistas
Obra da tirolesa entre o Pão de Açúcar e o Morro da Urca preocupa ambientalistas
De acordo com o procurador geral do Ministério Público Federal, Sérgio Suiama, a empresa responsável pela obra fez escavações na rocha que não estavam previstas no projeto inicial.
“Houve corte ilícito da rocha, um volume de 127 metros cúbicos. O Iphan ao invés de autuar, autorizou continuidade da obra (…) Há um dano a paisagem porque a área construída vai ser ampliada, apesar da empresa dizer de forma contraria, as próprias plantas mostram que haverá acréscimo de área construída, modificação na paisagem e modificação na rocha”, explicou Suiama.
A decisão pela paralisação das obras aconteceu por conta de supostas irregularidades na perfuração da rocha. A medida também determinou a suspensão dos efeitos da autorização dada pelo Iphan para o projeto.
Título em risco
Em contato com o g1, a Unesco Brasil confirmou que entrou em contato com as autoridades brasileiras para pedir esclarecimentos sobre as obras no Pão de Açúcar. (Veja a nota completa no final da reportagem).
Obra prevê a instalação de quatro tirolesas, com 770 metros de extensão, entre os morros do Pão de Açúcar e da Urca — Foto: Reprodução/ TV Globo
Obra prevê a instalação de quatro tirolesas, com 770 metros de extensão, entre os morros do Pão de Açúcar e da Urca — Foto: Reprodução/ TV Globo
De acordo com o órgão internacional, o governo respondeu algumas questões e a Unesco pediu novas informações.
“Quando receber todas as informações necessárias, a Unesco realizará sua análise com a ajuda de seus órgãos consultivos e fornecerá comentários técnicos e recomendações às autoridades”, dizia parte da nota.
A Unesco informou ainda que seguirá conduzindo o debate através do diálogo técnico e que pretende identificar “soluções sustentáveis para preservar e salvaguardar os valores do sítio do Patrimônio Mundial”.
Contudo, segundo o órgão, “se o problema permanecer sem solução, a questão poderá ser levada posteriormente ao conhecimento do Comitê do Patrimônio Mundial, que é o órgão soberano que decide sobre o status dos sítios do Patrimônio Mundial”.
A preocupação da Unesco com o avanço das obras no Pão de Açúcar começou no mês passado, após um alerta enviado pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), órgão consultivo da Unesco para a implementação da Convenção do Patrimônio Mundial.
Para Rafael Winter, um dos membros da Icomos no Brasil, as intervenções nos morros cariocas podem “afetar o valor de patrimônio mundial inscrito na Unesco”.
“Esse é o principal problema porque esse projeto deveria ter sido enviado pra Unesco antes de ter começado. A Unesco tem umas normas bem rígidas e bem claras de como proceder esse patrimônio mundial (…) Você tem o Icomos que avisa a Unesco que tem uma obra com potencial para danificar o patrimônio mundial e a Unesco começa um procedimento de avaliação desse impacto sobre o patrimônio mundial”, explicou Rafael.
Novo laudo descarta irregularidades
O presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Leandro Grass, disse ao RJ1 nesta terça-feira (18), que um novo laudo técnico produzido pela GeoRio constatou que as obras para a construção de uma tirolesa entre os morros do Pão de Açúcar e da Urca não representam risco geológico para a estrutura natural.
Segundo Grass, o parecer foi entregue ao Iphan na noite da última segunda-feira (17). O documento descarta a presença de “rupturas” ou “mutilação geológica” no maciço do Pão de Açúcar.
“A conclusão da GeoRio, diante das manifestações da comunidade, a partir da análise técnica da área de licenciamento do órgão, é que não há deflagração de rupturas do maciço da região de abrangência. Em resumo, ela está refutando esse argumento de que há o que se chama de mutilação geológica, e por consequência um possível comprometimento do morro. Esse parecer é da instituição municipal que tem a competência de analisar esse aspecto”, comentou o presidente do Iphan.
“É mais uma manifestação da GeoRio no sentido de atestar, cientificamente e tecnicamente, que essa intervenção não provoca prejuízos e não coloca em risco a pedra como um todo”, garantiu Leandro Grass.
O que dizem os citados
Durante as investigações do Ministério Público Federal, a empresa responsável pelo projeto informou que as obras começaram em setembro de 2022, assim que as licenças e autorizações foram emitidas pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e do Iphan.
Também segundo a empresa, a GeoRio constatou a ausência de qualquer risco estrutural ou instabilidade nas obras para a instalação da tirolesa.
Em nota, o Parque Bondinho Pão de Açucar reforçou que as intervenções em rocha estavam previstas no projeto e foram aprovadas pelo Iphan, pelo Instituto Rio Patrimônio Histórico Nacional, pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e de Desenvolvimento Econômico. A empresa disse ainda que não vai poupar esforços para demonstrar que as obras estão sendo feitas sob as melhores práticas.
A Secretaria de Meio Ambiente e Clima confirmou que a obra para a construção da tirolesa está embargada pela Justiça e disse que segue fiscalizando e acompanhando o caso.
Já a Unesco disse que entrou em contato com o governo do Brasil para solicitar esclarecimentos formais e informações sobre o projeto em questão e que quando receber todas as informações necessárias, a Unesco vai fazer uma análise e fornecer comentários técnicos e recomendações às autoridades.
Nota completa da Unesco:
“A Unesco está tratando este caso de acordo com procedimentos-padrão, como em todas as situações semelhantes que envolvem patrimônios mundiais.
Em conformidade com as diretrizes operacionais para a implementação da Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural de 1972, a UNESCO entrou em contato com o governo do Brasil para solicitar esclarecimentos formais e informações sobre o projeto em questão. O governo forneceu o que foi pedido, e a Organização solicitou algumas informações complementares. Quando receber todas as informações necessárias, a Unesco realizará sua análise com a ajuda de seus órgãos consultivos e fornecerá comentários técnicos e recomendações às autoridades. A partir daí, nesses casos, segue-se um diálogo técnico que conduz à identificação de soluções sustentáveis para preservar e salvaguardar os valores do sítio do Patrimônio Mundial. Acreditamos que isso também ocorrerá neste caso.
Entretanto, se o problema permanecer sem solução, a questão poderá ser levada posteriormente ao conhecimento do Comitê do Patrimônio Mundial, que é o órgão soberano que decide sobre o status dos sítios do Patrimônio Mundial.”
