Grama da Copa do Mundo tem toque brasileiro e é regada com água do mar; entenda


Platinum TE Paspalum, usada nos jogos de 2022, foi melhorada geneticamente a partir da Paspalum Vaginatum, espécie nativa do Brasil, da Austrália e do continente africano. Variedade é resistente ao calor extremo.

 

Ainda não dá para dizer que a taça da Copa do Mundo de 2022 é nossa, mas, pelo menos, a grama usada nos oito estádios do Catar tem um toque brasileiro antes de ter sido melhorada geneticamente nos EUA, em 2005.

 

Além disso, uma empresa do Brasil foi responsável por instalar essa variedade em cinco dos oito estádios da Copa. O país, porém, ainda não tem o registro da grama modificada geneticamente e, portanto, não pode produzi-la.

 

Essa grama usada no Catar é a Platinum TE Paspalum, nome da patente originária de uma modificação genética feita a partir da espécie Paspalum Vaginatum, que é nativa do Brasil, mas também da Austrália e do continente africano.

 

O principal ponto forte dela é a adaptabilidade a climas extremamente quentes e secos — como o do Catar — além de ter capacidade de irrigação com água do mar.

 

Presença no Brasil e patente nos EUA

 

A grama tem maior incidência em áreas litorâneas do Brasil, com presença em todos os estados do Nordeste e Sul e em alguns do Sudeste, Centro-Oeste e Norte, segundo mostra um catálogo do governo brasileiro chamado Flora do Brasil.

Espécie originária da grama da Copa é nativa do Brasil

 

A espécie também é nativa da África e da Austrália e especula-se que ela tenha sido levada para os EUA durante o século 18, em meio às navegações do período, segundo um estudo acadêmico do pesquisador James Beard, da Universidade Texas A&M.

 

Apesar da presença da espécie por aqui, a patente usada na Copa do Mundo de 2022 tem dificuldade de ser importada por conta da burocracia que o processo exige, comenta o agrônomo Patrick Ferreira.

Segundo ele, a importação pode levar até dois anos para ser aprovada pelo governo.

“Além de passar pela quarentena, ela precisa passar por um laudo — de estar isenta de pragas, doenças e plantas daninhas — que é uma outra empresa que precisa fazer, é uma situação bem complexa.”

A grama Platinum foi plantada nos Estados Unidos e levada para o Catar em mudas acondicionadas em caixas de papelão, em um avião refrigerado.

É o que explica Flávio Piquet, sócio da empresa brasileira Greenleaf, que participou da instalação de cinco dos oitos estádios da Copa do Catar: Al Bayt, Al Thumama, Education City, Ahmed bin Ali e Al Janoub.

As mudas foram plantadas nos arredores dos estádios, em “pequenas fazendas”. “A ideia é que, se precisasse trocar o gramado da noite para o dia, isso seria feito com facilidade”, conta Piquet.

Um fato importante é que toda grama precisa ser plantada em areia pura e jamais em solo argiloso, para que não haja retenção de água.

À medida em que as arenas foram ficando prontas, a Platinum TE Paspalum foi sendo instalada nos estádios.

Irrigação adequada

 

A Platinum tem pouca resistência à umidade e é extremamente vulnerável ao surgimento de fungos. Por isso, ela precisa de cuidados específicos no manejo de água.

A irrigação subterrânea foi uma das alternativas encontrada pela Greenleaf durante a implantação do gramado no estádio Al Bayt, por exemplo.

“A irrigação subterrânea por si só já garante o crescimento das gramas, mas não foi possível usar só esse sistema, porque irrigar o gramado na superfície garante que a bola tenha mais velocidade“, pondera Piquet.

Por conta disso, usa-se a irrigação sobre o solo somente antes das partidas de futebol, explica.

Cuidado após os jogos

Com o começo da competição os testes são reforçados para manter a qualidade do campo durante a maratona de jogos que a grama tem que suportar.

“Aí a gente irriga mais ou menos, aduba mais ou menos, aumenta a frequência de luz artificial, aumentar ou abaixa a altura de poda, ou pode até refazer o plantio em casos extremos”. 

Em trabalho conjunto com a Greenleaf, Santos foi o coordenador responsável pelo plantio do campo do estádio Al Janoub.

 

A grama mais usada no futebol profissional do Brasil continua a ser a Bermudas Celebration, mais tolerante à umidade, diferentemente da Platinum.

“A gente hoje atende 80% dos clubes da série A e B com a Bermudas Celebration, seja nas arenas onde eles jogam ou nos centros de treinamento”, diz Rodrigo Santos.

Essa variedade tem pontos fortes que se encaixam com as características de clima e jogo por aqui:

  • Altíssima recuperação, o que a torna capaz de lidar com o calendário lotado de jogos e shows nos estádios brasileiros;
  • Adaptada ao clima tropical e à umidade;
  • Também suporta ficar bastante tempo na sombra.

 

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