Com ‘sommelier de água’ e novas tecnologias, Cedae diz ter eliminado problema da geosmina


O micro-organismo que virou vilão nos verões de 2020 e 2021 deixava a água turva, com sabor e odor desagradáveis. Ao todo, o Sistema Guandu da Cedae atende cerca de 9 milhões de pessoas na capital do estado e nos municípios de Duque de Caxias, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Mesquita, Nilópolis e Belford Roxo.

 

Por dois anos seguidos, os moradores do Rio de Janeiro foram obrigados a conviver com alterações no gosto da água que chegava em suas casas. As principais reclamações durante os verões de 2020 e 2021 davam conta de uma água turva, com sabor e odor desagradáveis. Quem não se lembra da geosmina, o composto orgânico produzido por bactérias que acabou como grande vilã da estação?

Porém, a Cedae promete que esse é um problema do passado. Segundo a empresa responsável pela produção de água para 9 milhões de pessoas do estado, o investimento em tecnologia e em novos protocolos deram resultados positivos.

 

Entre os novos equipamentos, estão as oito boias holandesas instaladas na Lagoa do Guandu, que fica a quatro quilômetros da Estação de Tratamento de Água do Guandu (ETA), em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O local era o principal foco do problema.

 

A lagoa recebe água dos rios Guandu, Poços, Queimados e Ipiranga, que cortam a Baixada e carregam todo tipo de material: lixo, esgoto e até resíduos industriais. Por natureza, a água na lagoa fica parada. Quando isso se soma ao calor do verão, as condições ficam perfeitas para que substâncias como a geosmina apareçam.

 

As novas boias, descreve a Cedae, possuem um aparelho de ultrassom, um sonar, que impede que as algas que ficam no fundo da lagoa venham à superfície. A ideia é que, assim, elas não se reproduzam e se elimine a possibilidade de proliferação da geosmina. Cada boia cobre um raio de 250 metros de lâmina d’água.

 

Entre outras medidas para evitar a geosmina, a Cedae diz que também investiu em novas estações de tratamento de rios. As estruturas foram instaladas nos rios Poços e Queimados.

 

Outra iniciativa foi a ampliação do bombeamento de água do rio Guandu para a lagoa do Guandu. Essa movimentação permitiu um controle de temperatura da água, impedindo a proliferação de algas no local.

 

Testes rápidos e ‘sommelier de água’
Além dos novos equipamentos, uma estrutura própria de laboratórios também foi determinante para o fim da geosmina nas águas da Cedae. Segundo os técnicos da empresa, as mudanças proporcionaram um controle maior da presença de micro-organismos nas águas captadas para tratamento.

 

Testes que antes demoravam até sete dias para confirmar a presença da geosmina na água, atualmente ficam prontos em menos de 24 horas.

 

“Antes os resultados demoravam até sete dias para chegar para gente do laboratório contratado. Esse ano a gente começou a antecipar esses resultados, com equipamentos e métodos na estação. A gente tem todos esses parâmetros no mesmo dia da coleta”, explicou o diretor de saneamento e de grandes operações da Cedae, Daniel Okumura.

 

Outra análise que ficou mais rápida após o investimento em novas tecnologias, foi a contagem e a identificação de bactérias. O processo que antes levava dois dias passou a ser feito em até 24 horas.

 

Segundo Okumura, a agilidade para realizar esse tipo de teste permite que a empresa tome atitudes mais rápidas e eficientes, aumentando a chance de combater problemas antes que eles fiquem incontroláveis.

 

Além de novos protocolos de atuação e equipamentos de ponta, uma das novidades no dia a dia da Cedae são os “sommeliers de água”, uma equipe de 15 especialistas preparados para avaliar o sabor e o odor da água produzida na ETA Guandu.

 

Batizado oficialmente de painel sensorial da Cedae, o grupo se divide e se alterna para degustar a água tratada. A equipe de controle de qualidade coleta e prova a água produzida até três vezes por dia, dependendo na época do ano.

 

O “sommelier” passa por uma série de treinamentos sensoriais para que se torne apto a identificar padrões de gosto e possa associá-los a escalas predefinidas. Os testes envolvem padrões de amargo, salgado, azedo, doce, além de substâncias alvo como geosmina.

 

Apensar de parecer simples, não são todas as pessoas que estão preparadas para o cargo. Segundo a Cedae, é difícil encontrar no Brasil profissionais preparados para a função.

 

Para não perder a sensibilidade no paladar, essas pessoas convivem com uma série de restrições, como por exemplo:

 

estar em jejum na hora do teste, uma vez que o café pode deixar gosto residual na boca;
não pode estar usando perfumes fortes para não comprometer o olfato;
e não deve ser fumante, visto que o cigarro pode prejudicar a função das papilas gustativas e influenciar na percepção de gosto.

 

Nova estação de tratamento
Desde o leilão de parte dos serviços da Cedae, a distribuição de água na capital do Rio e em municípios da Baixada Fluminense é de responsabilidade das concessionárias Águas do Rio, Iguá Rio e Rio+Saneamento, de acordo com as respectivas áreas de atuação.

 

Atualmente a Cedae cuida da produção de água no estado. E para conseguir atender a todos, a empresa conta com a maior estação de tratamento de água do mundo, a ETA Guandu, que tem capacidade de tratar 45 mil litros de água por segundo. Só para se ter uma ideia da grandeza dessa estrutura, o custo do consumo de energia elétrica do local passa dos R$ 20 milhões por ano.

 

Ao todo, o Sistema Guandu atende cerca de 9 milhões de pessoas na capital do estado e nos municípios de Duque de Caxias, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Mesquita, Nilópolis e Belford Roxo.

 

Contudo, a produção do Sistema Guandu pode aumentar nos próximos anos, isso porque a Cedae já começou a preparar o terreno para a construção de uma nova estação de tratamento de água, a ETA Novo Guandu. O objetivo da companhia é produzir no local mais 12 mil litros de água por segundo.

 

Segundo Humberto Melo Filho, diretor responsável pelo projeto do Guandu II, a ideia da empresa é direcionar mais 3 mil litros de água por segundo para o sistema que abastece os municípios da Baixada Fluminense e outros 9 mil litros por segundo para o sistema que leva água para as outras cidades da Região Metropolitana e a capital.

 

O diretor também informou que a nova estação vai permitir que a Cedae realize manutenção ou obras na rede sem precisar interromper a produção de água.

 

O custo para a construção da nova estação está próximo de R$ 2,2 bilhões e a previsão para ela entrar em funcionamento é de 3 anos, a partir da conclusão da licitação e a autorização para o início da obra. A Cedae espera que a licitação seja aprovada em abril de 2023.

 

Segurança hídrica para 100 anos
Outro projeto ambicioso da Cedae, que ainda precisa da aprovação do Governo do Estado do Rio de Janeiro, trata do aumento do abastecimento de água para os moradores que ficam a leste da Baia de Guanabara, como as cidades de Niterói, São Gonçalo, Marica e Itaboraí.

 

Segundo o presidente Leonardo Elia Soares, a produção para essa região é feita pelo sistema Imunana-Laranjal, que conta com a ETA Laranjal, localizada em São Gonçalo. Ao todo, o sistema opera com vazão de 5 mil litros por segundo.

 

“A gente tem uma capacidade, uma quantidade de recursos hídricos mais que suficientes para atender toda a população que a gente precisa atender, a oeste da Baía de Guanabara. A leste da Baía, essa realidade não se repete. Lá, hoje a gente tem uma produção de 5 mil metros cúbicos por segundo no sistema Imunana-laranjal, que atende Niterói, São Gonçalo, parte de Marica e Itaboraí. É pouco”, concluiu o presidente da Cedae.

 

A empresa pretende ampliar a produção de água para essa região em mais 30 mil metros cúbicos por segundo. O projeto seria capaz, segundo o presidente da Cedae, de garantir a segurança hídrica do Rio de Janeiro para os próximos 100 anos.

 

A grande preocupação dos gestores é com o potencial de desenvolvimento da região de Itaboraí, onde existe a expectativa da industrialização promovida pelo Polo Gás Lub (antigo Comperj).

 

“Você tem ali uma quantidade de fatores que indicam um tremendo polo industrial. Mas a quantidade de água hoje ainda é insuficiente, não só para o polo, mas também para o que surge no entorno (moradias, comércio, serviços etc)”, comentou Leonardo.

 

Para realizar o projeto, a Cedae pretende realizar outro desvio do Rio Paraíba do Sul, próximo a Sapucaí, para que a região tenha uma produção de água mais forte. A obra para esse novo sistema conta ainda com a construção de um mega túnel dentro da rocha e uma usina de geração de energia em Guapimirim.

 

“Se hoje a gente tem capacidade de sete e tá produzindo cinco (metros cúbicos por segundo), por conta da capacidade dos equipamentos e etc, a gente tá falando de mais 30 metros cúbicos por segundo naquela região. Para 50 ou 100 anos, isso é mais que suficiente para ensejar o desenvolvimento econômico do estado e atender toda aquela população”, explicou Leonardo Elias.

 

O plano da empresa é ligar esse futuro sistema com o Sistema Guandu e assim ter uma capacidade de produção de água sem igual no país.

 

Contudo, por enquanto, o projeto está apenas no papel. Para ser colocada em prática, a iniciativa ainda precisa ter um estudo de viabilidade, que precisa ser feito em parceria com o Governo do Estado. Depois, o projeto precisa ser licitado. Com a obra aprovada, a estimativa para conclusão seria de aproximadamente cinco anos.

 

“Essa é uma obra estrutural do estado, não é uma obra que é uma necessidade só da Cedae. Isso é uma coisa muito maior. O que a gente fez foi toda a parte de projeto. O projeto conceitual, para licitar e contratar o projeto básico. Essa licitação, ela vai sair tão logo o governador do estado se assegure que tudo que ele entende, que consulte todos os órgãos, dê essa transversalidade no tema e ele autorize pra gente licite esse projeto pela Cedae”, explicou o presidente.

 

 

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