Borrachudos, mutucas e pernilongos: qual a diferença entre os mosquitos que picam?
Pele vermelha, irritada e coçando, bem perto de um minúsculo furinho que as vezes até sangra… Sinais de que um mosquito passou por ali! Quem nunca se incomodou com uma picada de pernilongo, né? Os pescadores esportivos, que passam horas no barco a espera da melhor fisgada, lidam com os piuns, famosos pela picada dolorida. Já os turistas que visitam Ilhabela, no litoral de São Paulo, encaram os borrachudos (e há quem diga que não tem repelente potente o bastante para afastar esses pequenos alados). Afinal, que bichos são esses e por que eles picam?
“É importante enfatizar que o nome popular para esses insetos varia muito de região pra região e, muitas vezes, a mesma espécie é conhecida por nomes diferentes. No entanto, conseguimos dividi-los entre famílias: os piuns e borrachudos, mosquitinhos minúsculos cuja picada é muito dolorosa e deixa marca vermelha na pele, normalmente são da família Simuliidae. Já os mosquitos, muriçocas e pernilongos (chamados também de carapanãs) são da família Culicidae”, explica o biólogo especialista em insetos César Favacho.
Entre os mosquitos mais famosos e populares estão o da dengue (Aedes aegypti), o pernilongo (Culex quinquefasciatus) e o prego (gênero Anopheles), transmissor do Plasmodium causador da malária.
“Tem ainda a família Tabanidae, das moscas popularmente chamadas de mutucas. Elas são comuns perto de animais grandes como cavalos e bois, mas também costumam ir atrás da gente se tiverem chance. A picada dói muito”, completa o biólogo, que destaca ainda a família Psychodidae, dos mosquitinhos-de-banheiro e mosquitos-palha, esse último vetor do protozoário que causa a leishmaniose.
Ainda que pertençam à famílias diferentes, variem de tamanho e área de ocorrência, a maioria das espécies compartilham a mesma característica: a hematofagia (hábito de se alimentar com sangue).
De acordo com Bruno, o sangue humano não possui características exclusivas que atraem as fêmeas. Na verdade, há uma série de fatores que contribuem para uma pessoa ser mais atrativa para os mosquitos. “De modo geral o CO2 da respiração, o cheiro, a transpiração e a temperatura são sinais químicos e físicos que atraem as fêmeas para se alimentarem”, diz.
“Há espécies, como o Aedes aegypti, que evoluíram concomitantemente com o ser humano e se adaptaram ao nosso modo de vida. Essa evolução foi tão específica, que há estudos que mostram preferência pelo sangue humano a de outros animais”, destaca o biólogo.
A picada
Aquela minúscula e tão incômoda ferida que fica na nossa pele nada mais é que o resultado da alimentação das fêmeas, no entanto, o processo da picada é muito mais complexo do que se imagina. “O aparelho bucal dos mosquitos é chamado de ‘probóscide’. Nele, há um conjunto de estruturas que desempenham funções distintas. De modo geral, quando a fêmea pica, há um primeiro conjunto de estruturas que rompem a pele e outras que separam a pele.
Depois disso, dentro da pele, ela vai procurar o vaso sanguíneo mais próximo e, ao encontrar, injeta a saliva contendo enzimas anestésicas e anticoagulantes, garantindo que não haja dor e o sangue não coagule (é nesse momento que em mosquitos vetores há a transmissão do patógeno no sangue). A última estrutura é usada para sugar o sangue até que a fêmea consiga uma refeição completa”, detalha Bruno, que explica os possíveis motivos das inflamações na pele causadas pelas picadas.
“Ainda que haja enzimas anestésicas, o aparelho bucal não é estéril como uma agulha cirúrgica, por exemplo. Então, assim que a pele é rompida, a ferida fica exposta a microrganismos que vão causar irritação, coceira e inchaço, tanto durante o tempo em que a fêmea estiver se alimentando, como depois, variando de acordo com a sensibilidade de cada pessoa”, diz.
De acordo com o biólogo, a quantidade de sangue sugado varia de acordo com a espécie, já que cada uma possui um tamanho e, consequentemente, maior espaço abdominal para armazenar sangue. “Como exemplo, uma fêmea de Aedes aegypti suga, em média, 2,5 microlitros, ou 0,0025ml, de sangue. Se a fêmea conseguir uma refeição completa, isso garantirá a ela alguns dias de saciedade. O sucesso ou fracasso dessa etapa determina a frequência de tentativas de picadas”, completa.
Curiosidades
Bruno explica que o habitat dessas espécies é extremamente diverso, tanto para adultos quanto para as formas imaturas dos mosquitos (larva e pupa). “As larvas de Aedes aegypti, por exemplo, preferem criadouros escuros e protegidos”.
Assim como o habitat, é difícil determinar um tempo de vida específico para essas espécies. “As fêmeas de Aedes aegypti podem viver, em média, 30 dias. Esse valor varia de acordo com o ambiente, com a alimentação (principalmente na fase larval, que vai determinar o tamanho e força vital do mosquito adulto), e com os gastos energéticos ao longo da vida”, detalha o biólogo, que destaca a importância dos mosquitos para os ecossistemas.
“Se deixarmos de lado a ideia de que os seres vivos existem e desempenham papéis em prol do ser humano, mesmo os mosquitos que nos picam são importantes para o ecossistema, pois uma única espécie está atrelada a uma longa e complexa cadeia alimentar, estruturada há milhares de anos. Então, a ausência ou extinção de um mosquito, até mesmo do Aedes aegypti, causaria um impacto desastroso a outras espécies que dependem dela, desestabilizando, pelo menos, todo um microecossistema”, finaliza.
