Especialistas garantem que o Norte Fluminense tem vocação para produção de grãos


A possibilidade de diversificação da agricultura regional é uma realidade, onde o Norte Fluminense tem revelado uma vocação para o plantio de grãos. É o que aponta um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) realizado em Campos e Macaé por quatro safras, entre 2017 e 2021. Os resultados superaram a média nacional e surpreenderam os pesquisadores, que, após avaliarem o desenvolvimento das cultivares, as práticas e os sistemas de cultivo mais adequados, identificaram cerca de 300 mil hectares com potencial para produção de soja na região.

 

Para a Fazenda Primus Ipanema plantar grãos já é uma realidade. Localizada em Macaé, a propriedade tem como atividade principal a pecuária de corte, mas destina 380 hectares ao plantio de soja, milho e arroz. O que no início visava apenas à alimentação do gado, se expandiu e hoje permite a exportação de grãos de soja. A primeira área com plantio comercial, com 47 hectares colhidos na safra 2020/2021, rendeu 80 sacas por hectare, superando a média brasileira de 55 sacas.

 

O administrador da fazenda, Jonas Kluppel, conta que o plantio de grãos começou em 2009, com feijão e milho, e para suprir a alimentação do gado criado em confinamento. O plantio de soja teve início há cinco anos de forma despretensiosa. O produto, além do alto rendimento, foi classificado como tipo 1, recebendo melhor remuneração na hora da venda.

 

Com os bons resultados no campo e na comercialização, a Primus pretende aumentar a área plantada com soja de 74 para 180 hectares na safra 2021/2022, com 60% da produção para exportação e 40% para o consumo interno.

Em Campos, a produção de grãos está em fase de experimentação, mas alguns produtores já investem no cultivo, como a Fazenda Abadia, que plantou uma área para consumo do gado em confinamento.

 

— A Embrapa vem conduzindo experimentos para saber qual variedade se adapta melhor às nossas condições climáticas e de solo. Macaé é mais privilegiado que a gente, porque a chuva lá é mais distribuída do que aqui em Campos. No nosso veranico, ficamos 30, 40 dias sem uma gota de água. Um sol muito intenso, muito vento. Então, a planta não aguenta. Em contrapartida, no primeiro ano de experimento, tivemos chuva excessiva, que também prejudicou a produção de soja. Eles estão testando variedades da soja. Algumas já apresentaram produtividade excelente, e se algum produtor quiser se aventurar, a gente pode procurar o pessoal da Embrapa para dar um apoio técnico. O problema maior é a mecanização da colheita e plantio. E aqui no estado do Rio temos um velho gargalo, que é a falta de incentivo — ressaltou.

 

 

De acordo com os pesquisadores da Embrapa, o potencial da região para o plantio de grãos (soja e milho) vai além do comportamento das cultivares no campo, pois eles consideram ainda fatores sociais, econômicos e a infraestrutura regional. “Paralelamente aos testes de cultivares, fizemos debates com diversas instituições e órgãos do estado no intuito de identificar oportunidades para ampliar a área de grãos no Rio de Janeiro”, relata o pesquisador Jerri Zilli.

 

 

O estudo feito pela Embrapa, entretanto, aponta a necessidade de adequação da infraestrutura logística no estado para reduzir o custo e apresentar um produto mais atrativo.

 

 

Oportunidade de desenvolvimento no RJ – Apesar de ser o segundo maior mercado consumidor de alimentos e representar 9,7% do PIB nacional, o Rio de Janeiro não é influente no agronegócio do Brasil. Segundo a Embrapa, o estado representa menos de 1% do PIB desse setor, mesmo tendo um parque industrial importante com as principais agroindústrias de base agrícola no segmento de bebidas, transformação e fábrica de produtos, além de uma cadeia de insumos para agropecuária, produção agropecuária básica, agroindústria e agrosserviços. “O plantio de grãos aliado a esse cenário já existente pode ser uma oportunidade de inovação e desenvolvimento econômico a partir do agronegócio”, comenta o pesquisador Jerri Zilli.

 

 

 

Atender à cadeia de produção de aves e outros animais no estado pode ser outro atrativo para os produtores, segundo os pesquisadores. Hoje, 85% do frango consumido no estado vem de outras localidades. No entanto, os 15% que são produzidos em terras fluminenses demandam diariamente cerca de 30 mil toneladas de farelo de soja, que também vêm de outros estados. “Além de abastecer a criação de aves do Rio, a produção de soja pode ser um estímulo ao estabelecimento de novas agroindústrias”, analisa Zilli.

Apesar de o estudo revelar um cenário favorável ao desenvolvimento da cadeia de grãos, em especial a soja e o milho, os pesquisadores da Embrapa reconhecem que é necessário o envolvimento do poder público por meio da elaboração de políticas públicas que possam encorajar os produtores.

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