Sergio Gabrielli: “Eldorado do petróleo, nunca mais”
As robustas receitas dos royalties e participações especiais pela produção do petróleo “jamais voltarão”, de acordo com o ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli, em entrevista ontem ao Folha no Ar, da Folha FM, 98,3. “Acabou o milho, acabou a pipoca.

A cotação não voltará nunca às cifras anteriores”. Sobre a disputa pelos royalties em Brasília, Gabrielli disse que o embate do Rio com os outros estados é muito difícil de se sustentar, porque a pressão é grande de outros estados contra a maior participação para o Rio.
A queda da produção nos campos maduros da Bacia de Campos, que tem minguado as receitas dos royalties e, especialmente, a Participação Especial (PE), que nos meses de outubro e novembro chegou zerada para Campos, foi analisada pelo economista. “A maioria dos campos maduros não interessa mais à Petrobras, que passou a sua exploração para outras empresas. Esses campos, que já produziram há mais de 40 anos, inexoravelmente vão se esgotar um dia.
A produção atinge um platô de produção e vai declinar um dia. É provável que a produção dos grandes campos caiu de determinado nível a um nível baixo num limite que não mais permite pagamento de PE. E uma coisa é certa: valores em royalties iguais aos anos de 2012 ou 2013, jamais. É quase impossível o retorno àquelas cotações de preços”, admitiu.
O impasse de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) a ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) é outro obstáculo às receitas dos produtores da Bacia de Campos. “O que o Rio quer, manter a distribuição dos royalties, é difícil. O grau de concentração dos royalties para o Rio é muito grande, e a pressão dos outros 26 estados é imensa.
Ao judicializar a questão, não sei se o STF vai prolatar uma decisão favorável. Mas uma solução negociada vai ter que ser pensada, porque vai ser difícil segurar a pressão. Os outros estados vão querer uma parcela maior. Há uma unificação desses estados contra o Rio”, analisou.
Gabrielli afirmou que a Petrobras abandonou a Bacia de Campos, ao analisar o processo de transformação da empresa, após o governo Dilma, quando deixou de ser operadora única do pré-sal para abrir espaço a empresas privadas.
— A Petrobras era uma empresa que produzia, refinava e transportava petróleo e derivados, participava da petroquímica, dos biocombustíveis, da construção de gasodutos, da fabricação de fertilizantes e da produção de energia elétrica pela via das termelétricas. Era, portanto, uma empresa integrada, que hoje está sendo desmontada.
Era uma empresa que tocava suas atividades do poço ao posto, mas agora está focando sua produção na Bacia de Santos, nas áreas mais promissoras do pré-sal, abandonando a Bacia de Campos, assim como tem feito nas atividades terrestres no Nordeste. Mais ainda, vendendo grande parte de suas refinarias, já saiu dos biocombustíveis, das termelétricas, da área de gás natural e da produção de energia elétrica de tal maneira que a empresa está sendo transformada numa mera exportadora de óleo cru, dependente daquilo que eu tenho chamado de maldição do petróleo — avaliou.
Segundo o ex-presidente da Petrobras, a empresa também desmontou um programa que viabilizaria a exploração de áreas próximas aos campos maduros da Bacia de Campos.
“Havia um programa que aumentava a exploração de áreas concedidas para compensar áreas declinantes com investimentos nesses campos maduros, o que viabilizaria novas áreas nas proximidades desses campos daqui que são imensos”, denunciou.
Gabrielli afirmou que o Brasil está na contramão de países como a Arábia Saudita e a Noruega. “A Arábia Saudita é o segundo maior produtor, depois dos Estados Unidos. E busca diversificar sua atividade econômica com maior desenvolvimento do refino, integrando com a petroquímica, deixando de ser um exportador de petróleo cru para processar petróleo, não produzindo apenas derivados para o transporte, mas sim para a transformação petroquímica em plásticos e produtos de consumo”.
Gabrielli enfatiza que o futuro do petróleo tende a diminuir seu uso como gasolina e diesel e aumentar sua utilização na indústria de bens de consumo. “É este caminho que vai evitar essa tal maldição do petróleo”.
O executivo apontou outro caminho. “Outros governos capturam royalties para reutilizá-los na diversificação da atividade econômica, como aconteceu na Noruega, que vinha de atividades econômicas rudimentares. Eles descobrem o petróleo e passam a desenvolver a indústria naval, a engenharia pesada e a ciência, diversificando a cadeia produtiva”.
Para Gabrielli, a política que esses países elegeram e foi abandonada pela Petrobras no atual governo privilegia o conteúdo nacional e incrementa uma cadeia produtiva daquilo que é necessário à produção petrolífera, como a fabricação de tubulações, embarcações, sistemas submarinos, diversos sistemas de distribuição e serviços com produção local. “O petróleo como derivado para o transporte de veículos vai acabar, mas a expansão mundial do petróleo continuará para essa indústria de produtos de bens de consumo”, lembrou.
Ainda sobre o abandono da política de conteúdo nacional destruída pela atual direção, Gabrielli destacou a produção de equipamentos. “Equipamentos indispensáveis são as sondas de perfuração, embarcações gigantescas de tecnologias extremamente avançadas que perfuram poços com lâminas d’água profundas.
Com a descoberta do pré-sal, a Petrobras percebeu a demanda. Então, era necessário que o mundo crescesse a capacidade de produzi-los para atender às necessidades da indústria do petróleo. Já que a demanda vai crescer, decidimos construir estaleiros aqui e fazer com que a indústria naval aqui se adapte para produzir estes equipamentos. Mas, isso exigiria um certo tempo para que indústria brasileira se adaptasse, baixasse seu custo em uma curva de aprendizado. Era preciso uma escala produtiva para viabilizar esses equipamentos a razoáveis custos internacionais.
Os estaleiros começaram a funcionar, começamos a nos aproximar dos padrões internacionais no prazo de entrega, etc. Mas isso foi interrompido quando todo este sistema foi desmontado, a indústria naval brasileira foi destruída e a lógica de produzir nacionais deixou de existir”, destacou Gabrielli.
Economista destaca influência dos EUA
Sérgio Gabrielli admite que a Operação Lava Jato teve vinculação com interesses dos Estados Unidos. “Quando se confirmou a existência da gigantesca riqueza do pré-sal, de 2006 a 2007, o Brasil, que era pequeno no mercado do petróleo, passou a ser observado de outra forma, recebemos visitas e pressões da China, Rússia e dos EUA, e o país entrou no radar das potências. Os EUA tão tinham acelerado sua produção para se transformar como hoje maior produtor petróleo do mundo. Neste período, eles ainda consideravam o petróleo elemento fundamental de segurança nacional. Evidentemente, não queriam ver o petróleo sob controle do Estado brasileiro”.
Gabrielli frisou que, em 2010 o Brasil fez aprovar um conjunto de leis e medidas de cunho nacionalista que desagradava ainda mais as potências estrangeiras. “Uma delas transformava o contrato de concessão em contrato de partilha de produção.
O petróleo produzido aqui não era mais propriedade das empresas concessionárias, mas do governo brasileiro, que partilhava o lucro com as empresas produtoras. Transformamos a Petrobras na operadora única do pré-sal com escala para viabilizar produção de conteúdo nacional, com a criação de um fundo social que iria capturar essa receita petroleira para financiar a transformação do sistema educacional brasileiro através de fundo gerido por uma estatal, a Petróleo S/A”.
Gabrielli destaca que esta política clara de conteúdo nacional estimulava a indústria e a engenharia nacional, que começava a crescer e disputava construção de aeroportos com os EUA, obras de infraestrutura na América Latina e expandia atividades na África. “Havia um projeto de crescimento da economia brasileira em torno do petróleo sob controle do Estado brasileiro e sua destinação para diversificar atividade industrial, melhorar a educação e a produtividade do trabalhador.
Um modelo não interessava aos EUA, que começam a pressionar para desmontá–lo, sob diferentes maneiras, através diplomática, militar, inteligência e espionagem, sabotagem e entre outras coisas. A Petrobras foi espionada por órgãos segurança e de informação dos EUA, que capturavam parte dos processos de corrupção e, evidentemente, orientaram os sistemas da Polícia Federal, Lava Jato e dos chamados justiceiros brasileiros que combinaram interesses estratégicos dos EUA com os interesses estratégicos domésticos de tirar a Dilma e o PT do governo, viabilizando o impeachment. São hipóteses, mas acho a narrativa adequada e ajustada para entender essa geopolítica internacional do petróleo”.
Sobre os escândalos de corrupção na Petrobras, que geraram a Operação Lava Jato, Sérgio Gabrielli avaliou que não é correta a generalização. “O Paulo Roberto Costa, o Nestor Ceveró e o Barusco tinham 30 anos de companhia, eram funcionários de carreira, técnicos de reconhecida competência, sob um olhar daquela época. Hoje nós sabemos que eles eram corruptos. Essa corrupção deles tem que ser punida, mas ao invés de punir os corruptos buscou-se generalizar, caracterizando a Petrobras como se fosse uma empresa corrupta, o que não é verdade. O volume de pessoas envolvidas em corrupção é muito pequeno, a maioria dos profissionais da Petrobras é de pessoas honestas, competentes e dedicadas”.
Corrupção provocou prejuízos de R$ 6 bi
O economista afirma ainda que em face do gigantismo financeiro da Petrobras não foi possível identificar antes a teia de corrupção.
— A Petrobras reconhece no seu balanço de 2004 a 2014 que a corrupção provocou prejuízos de R$ 6 bilhões para a empresa, volume que escandaliza qualquer pessoa. Mas o sistema de controle da Petrobras ou fora da empresa, órgãos de controle externo ou a imprensa não conseguiram perceber esta corrupção porque este processo durante em 10 anos ocorreu numa empresa que durante este mesmo período faturou R$ 2,6 trilhões. Portanto esta corrupção gigantesca que tem que ser punida, condenada e não pode ser aceita, representou 0,5% da receita da Petrobras. Era difícil de ser descoberta antes.
Gabrielli, no entanto, reconhece que como era em termos absolutos algo grande, havia também uma vinculação política muito forte.
— Aconteceu o que chamo de “o rabo passou a abanar o cachorro”, que fez desaparecer um conjunto de atividades corretas que a empresa tinha desenvolvido e que levaram o país a um nível de desenvolvimento e crescimento muito grande. Para pessoas comuns, falar que um engenheiro roubou R$ 100 milhões de uma empresa é volume gigantesco, mas a gerência de engenharia processava 50 a 60 bilhões de reais de contratos todo ano. logo, 100 milhões em 50 bilhões de reais é quase nada, por isso que o as auditorias internas e os órgãos de controle não conseguiram perceber anteriormente este tipo de comportamento antes que ele se transformasse neste escândalo.
