Os argumentos científicos de quem é contra, a favor ou está em dúvida sobre retomar aulas no Brasil durante a pandemia


Com as portas fechadas desde meados de março por causa da pandemia de coronavírus, escolas no Brasil enfrentam a indefinição sobre a retomada das aulas. Quais foram as experiências de reabertura em outros países? O que a ciência diz sobre reunir crianças e jovens dentro de salas?

Os contrários à reabertura das escolas no Brasil durante a pandemia dão esses argumentos:

O coronavírus atinge todas as pessoas, independente da idade
Crianças e adolescentes também podem morrer da Covid-19
A taxa de infecção entre crianças é, de fato, menor. Mas isso está relacionado com restrições à circulação dos menores na pandemia, e não com menor capacidade de uma criança se infectar
Crianças costumam ser assintomáticas, podendo espalhar o vírus para a família de modo silencioso e causar surtos
A ciência ainda não entende como ocorre a infecção nas crianças de acordo com a faixa etária
Centenas de milhares de profissionais da Educação Básica no Brasil são do grupo de risco
Reabrir as escolas aumentaria a circulação das pessoas diariamente
A prioridade neste momento deve ser a proteção da vida
Ainda é cedo para reabrir no Brasil, uma vez que a transmissão não está controlada
A quantidade de pessoas suscetíveis ao coronavírus é muito alta e os pesquisadores ainda não entendem direito como funcionam os anticorpos e os casos de reinfecção.

 

 

Os favoráveis à reabertura das escolas na pandemia argumentam que:

Crianças que desenvolvem quadros graves da Covid-19 são minoria
Mortes pelo vírus são raras em crianças, sobretudo as pequenas
O ensino a distância está aumentando as barreiras educacionais, uma vez que muitos alunos não têm acesso a internet

O fechamento das escolas está sobrecarregando as mulheres, geralmente responsáveis pelos cuidados dos filhos
Pesquisas indicam que períodos longos de distanciamento do ambiente escolar aumentam a evasão escolar e a violência contra crianças e adolescentes
Medidas de higiene e testagem com frequência permitiriam uma reabertura mais segura
Para discutir o tema, o G1 ouviu profissionais da saúde e do ensino e reuniu os estudos mais recentes sobre crianças e Covid-19, além de documentos de entidades de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

 

Contra a reabertura
Uma das principais preocupações da ciência neste momento da pandemia, segundo o professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), Daniel Lahr, é entender como as crianças reagem à infecção pelo coronavírus

 

 

“No mundo inteiro, quem ficou menos exposto ao vírus até o momento foram as crianças. Elas ficaram dentro de casa e os pais foram fazer as compras, trabalhar etc. Então, a gente tem um problema até amostral. Não dá para dizer se é seguro ou não [colocar as crianças em circulação], e cientista precisa ter precaução”, afirma o professor da USP.

 

Abertura é prematura porque pandemia não está controlada no país

 

Um documento da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz considera prematuro o retorno às atividades escolares presenciais, uma vez que a transmissão da Covid-19 não está controlada. Por transmissão controlada, a instituição entende como:

 

Diminuição constante do número de hospitalizações e internações em UTI de casos confirmados e prováveis por, pelo menos, duas semanas seguidas
Diminuição do número de mortes da Covid-19 pelo menos nas últimas três semanas.

Um município ter pelo menos 30% de leitos disponíveis

 

Segundo o o epidemiologista da Fiocruz, Paulo Nadanovsky, uma vez que o vírus não está controlado na comunidade, as chances das crianças ou professores levarem a infecção para dentro das escolas é alta.

 

“A pandemia é como um incêndio. Ela começou em um lugar e foi se alastrando para outros. O problema é que não controlamos o fogo, ainda está acontecendo o incêndio. Se reabrirem neste momento, as escolas vão alimentar esse incêndio”, diz o epidemiologista.

 

Crianças também morrem da Covid-19

Outro argumento levantado é que casos graves e fatais de covid-19 em crianças são raros, mas podem ocorrer.

 

No Brasil, pelo menos dez crianças entre 7 meses e 16 anos infectadas pela Covid-19 morreram após desenvolverem uma doença rara, a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, segundo o Ministério da Saúde.

 

“Apesar de baixa porcentagem, existem relatos de que crianças que foram infectadas desenvolvem uma doença secundária semanas depois: o misc (síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica). É uma doença sistêmica muito séria que dá choque, envolve sistema cardíaco, intestinal, e uma inflamação generalizada muito complicada. E a gente não entende muito bem a resposta inflamatória”, explica Lahr.

 

 

Um estudo publicado no dia 25 de agosto pelo Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) aponta que o vírus, em crianças e adolescentes, pode desenvolver uma síndrome rara no coração, o que pode causar a morte dos pacientes.

 

Crianças se infectam tanto quanto adultos

Um estudo publicado pelo CDC (Centro de Controle de Doenças) dos Estados Unidos analisou um surto de coronavírus ocorrido em um acampamento para crianças em junho. Após o surgimento de um primeiro caso em um adolescente entre os 597 participantes, 344 fizeram o teste e 260 (o equivalente a 76% dos testados) tiveram o resultado positivo em menos de uma semana.

Ao comentar a reabertura das escolas, a líder técnica da Organização Mundial da Saúde (OMS), Maria van Kerkhove, afirmou no dia 21 de agosto que “as crianças podem se infectar independente da faixa etária. A maioria delas tem a doença mais leve, mas elas também podem desenvolver a forma mais grave e algumas crianças morreram”, disse.

 

Crianças transmitem tanto quanto ou até mais que os adultos

Pelo menos dois estudos americanos já encontram carga viral maior em crianças e adolescentes infectados pelo coronavírus quando comparados com pacientes adultos:

 

um publicado na revista internacional JAMA Pediatrics em 30 de julho e realizado pelo Hospital Infantil Ann & Robert H. Lurie de Chicago
e outro do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, publicado na revista Journal of Pediatrics em 20 de agosto.

“Fiquei surpreso com os altos índices do vírus que encontramos em crianças de todas as idades, especialmente nos dois primeiros dias da infecção”, disse Lael Yonker, um dos diretores do Hospital Geral de Massachussetts e principal autor do segundo estudo.

 

Crianças têm mais chance de serem assintomáticas

Um mapeamento feito pela Prefeitura de São Paulo em 6.000 crianças e adolescentes de 4 a 14 anos mostrou que mais de 64% das crianças infectadas pelo coronavírus são assintomáticas.

 

Nadanovsky lembra que crianças nas periferias das grandes cidades costumam morar com famílias maiores e em casas menores, onde diferentes gerações convivem juntas.

 

“Se essas crianças que moram com mais pessoas se infectarem e não apresentarem sintomas ou não forem testadas, vão criar um surto dentro de casa e em suas comunidades, onde o isolamento é mais difícil de ser seguido”, afirma o pesquisador da Fiocruz.

 

Ressurgimento de casos após a reabertura em outros países

Após controlar os casos de coronavírus e reabrir as escolas em meados de junho, a Coreia do Sul voltou a registrar aumento de infecções diárias. Nas últimas duas semanas, pelo menos 150 alunos e 43 funcionários de escolas tiveram teste positivo na área metropolitana de Seul, segundo o Ministério da Saúde do país.

 

No dia 25, o governo anunciou que todos os alunos, exceto os do último ano do ensino médio, nas cidades de Seul, Incheon e na província de Geonggi voltarão para casa e terão aulas online até 11 de setembro.

 

Na França, 40 mil escolas foram reabertas no início de maio. Uma semana depois, 70 registraram casos de coronavírus e tiveram que ser fechadas.

 

 

Em Berlim, na Alemanha, pelo menos 41 das 825 escolas registraram casos de coronavírus entre os alunos duas semanas após reabrirem em agosto. No norte do país, dois grandes estabelecimentos foram fechados este mês.

 

“Se estes novos surtos ocorreram nos países europeus, que já estavam com as transmissões controladas, o mesmo pode acontecer no Brasil”, explica Nadanovsky.

 

“Em uma sala de aula, você tem muitas pessoas juntas, em um ambiente fechado. Esta é uma situação [favorável] para o vírus circular”, diz o epidemiologista da Fiocruz.

 

Em Jerusalém, uma das escolas mais tradicionais do país reabriu em maio, quando a curva de contágio do coronavírus apresentou leve queda. Após oito dias, surgiu o primeiro caso da infecção entre os alunos. Poucas semanas depois, a escola virou foco de um dos piores surtos de coronavírus em Israel, com 278 casos, em um universo de cerca de 1.350 alunos e funcionários.

 

“Em Israel, escolas foram abertas em momento de pandemia acelerada. O resultado foi desastroso. O coronavírus é um parasita, funciona a partir de oferta [de pessoas suscetíveis]. Se a oferta está crescendo, o vírus cresce”, analisa o professor Lahr.

 

Reabrir colocaria mais pessoas em circulação

A infectologista Lívia Ribeiro, membro da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, defende que a reabertura das escolas aumentaria a circulação diária das pessoas nas ruas, criando novas oportunidades para o vírus se transmitir.

 

“Entendo os prejuízos causados pelo fechamento das escolas, mas, no momento, acredito que não deveriam retornar às atividades. Não só pelas medidas de higiene e precaução no ambiente escolar, mas também pelo aumento significativo na circulação de pessoas, inclusive no transporte público”, afirma Ribeiro.

 

Milhares de profissionais de educação são grupo de risco

Documento publicado em maio pelo movimento Todos Pela Educação sobre o debate em torno da reabertura das escolas informou que a Educação Básica brasileira (infantil, fundamental e médio) é composta, em sua maioria, por profissionais que são do grupos de risco ao coronavírus.

 

 

“São mais de 80 mil docentes na Educação Básica com mais de 60 anos e quase 500 mil acima de 50 anos, faixa etária considerada de maior risco na atual pandemia”, informa o documento do Todos Pela Educação.

 

 

Os argumentos em torno da retomada gradual das aulas presenciais neste momento da pandemia relacionam o afastamento do ambiente escolar com o aumento das violências contra crianças e adolescentes, das desigualdades sociais e da evasão escolar.

 

Foi com base nesses argumentos, por exemplo, que o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Comercial no Estado de São Paulo (SIEEESP) entrou com ação na Justiça de São Paulo pedindo o retorno das aulas presenciais nas escolas particulares do estado.

 

“Temos vários estudos que mostram que a escola particular está pronta para o retorno, com protocolos assinados por especialistas e escolas preparadas com várias ações efetuadas para esse retorno, como mudança no layout para atender de 20 a 30% dos alunos em rodízio. Termos estudos que mostram a necessidade desta volta às aulas por parte das crianças e daquelas famílias que necessitam, mas respeitando aqueles que ainda tenham algum receio, pois as aulas serão híbridas”, disse o presidente do SIEEESP, Benjamin Ribeiro da Silva, sem citar os estudos em questão.

 

Crianças são minoria entre os casos graves e fatais

O consultor médico chefe do Reino Unido, Chris Whitty, afirmou no dia 23 que os efeitos da perda prolongada de aulas são críticas para o desenvolvimento de crianças no longo prazo, enquanto as chances de morte de jovens pela doença são “incrivelmente pequenas”.

 

“Todas as mortes de crianças são uma enorme tragédia, mas a maioria desses poucos casos, no Reino Unido e internacionalmente, aconteceram em pessoas com severas pré-condições de saúde”, disse Whitty.

 

“As chances de uma criança ser prejudicada por não ir a escola são completamente claras, então o balanço de risco está a favor de que elas devam ir a escola mesmo durante a pandemia”, afirmou.

 

 

Uma pesquisa divulgada pela revista médica “Lancet” analisou 7.780 pacientes com Covid-19 em 26 países e concluiu que menos de 0,1% das crianças infectadas evoluíram para casos mais graves.

 

Embora 59,1% das crianças e adolescentes analisados na pesquisa tivessem apresentado febre e 55,9%, tosse, 19,3% deles eram assintomáticos. Apenas 0,14% desenvolveram a síndrome inflamatória multissistêmica, a complicação da Covid-19 que atinge as crianças. Sete morreram.

 

 

Ações de higiene e testes frequentes diminuem os riscos

Entre os que defendem a reabertura das escolas neste momento, há o argumento de que testar com grande frequência alunos e funcionários reduziria os riscos de surtos dentro das escolas.

 

Outras medidas seriam, de acordo com a Fiocruz:

 

Colocar em quarentena todos os que tiveram contato com o aluno ou funcionário infectado, dentro e fora da escola
Lavar as mãos com água e sabão ou álcool gel durante a permanência na escola
Manter salas de aula com poucas pessoas, com distância de dois metros entre os alunos
Controle dos transportes públicos e escolares para garantir o distanciamento social

Controle do risco de importação de doença para dentro da escola, vinda de outros lugares
“A escola também deve ter funcionário responsável por checar sintomas de alunos e funcionários, local para isolar quem iniciar com sintomas e fluxo estabelecido de encaminhamento dos casos para o sistema de saúde e de registro de suspeitos da Covid, assim como de seus contatos diários”, explica a infectologista do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da USP, Angela Freitas – que diz estar dividida sobre reabrir ou não as escolas .

 

Um estudo publicado em julho na revista científica Jama sugeriu que, para reabrir os campi universitários dos Estados Unidos com segurança durante a pandemia, as instituições devem testar os alunos e profissionais a cada dois dias. Ao final de 80 dias de aulas, o campus teria casos registrados, mas não teria um surto.

 

Aumento do abandono escolar e das violências

O mesmo documento publicado pelo Todos Pela Educação citado acima também traz dados sobre os impactos negativos do fechamento das escolas.

 

Em situações de desastres naturais, como terremotos, por exemplo, o documento informa que há redução de até 20% nas matrículas dos alunos e de diminuições de mais de 20% nas chances de conclusão dos estudos, uma vez que o afastamento forçado do ambiente escolar provoca perda de motivação no aprendizado e menor engajamento nas atividades de ensino remoto.

 

 

Os que têm dúvidas
Neste debate, há, ainda, os que têm dúvidas ou não têm uma posição definida.

 

É o caso da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). Em nota, a organização afirmou que “não tem um posicionamento oficial sobre isso [reabertura das escolas]. Ainda é um tema que envolve muitas questões e realidades diferentes.”

 

O G1 também pediu um posicionamento à Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) quanto à reabertura das escolas, mas não recebeu uma resposta ou retorno.

 

A infectologista Angela Freitas, da USP, considera que as escolas deveriam reabrir neste momento somente para parcela pequena dos estudantes.

 

A médica também defende que somente as escolas que têm estrutura e funcionários para se adequarem às medidas de contenção do vírus e monitoramento dos alunos e seus contatos devem reabrir durante a pandemia.

 

“Para reabrir, as escolas devem estar preparadas, com protocolos de cuidado do espaço, distanciamento social, ventilação adequada, local para higienização frequente das mãos, fornecimento de máscaras faciais adequadas para alunos e máscara hospitalar tipo cirúrgica para professores. Pais, alunos e funcionários devem ser treinados antes de se reiniciar o retorno às aulas”, afirma Freitas.

 

Apesar de ser contra a reabertura das escolas neste momento no Brasil, a infectologista Lívia Ribeiro, da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, afirma que se a educação fosse entendida como prioridade em relação a demais serviços que já estão abertos, seria possível retomar as aulas presenciais.

 

 

Paulo Nadanovsky, da Fiocruz, concorda que a questão é polêmica e envolve muitos fatores. “A ciência não diz se devemos abrir ou fechar as escolas, mas ela mostra quais são as condições e quais serão as situações em cada uma das escolas. Informada dessas situações, a sociedade julga”, afirma.

 

O que diz a OMS

 

 

Em pelo menos duas coletivas de imprensa realizadas em agosto, a OMS demonstrou preocupação com a reabertura das escolas durante a pandemia em regiões que o vírus circula de maneira mais intensa.

 

No dia 18, ao falar sobre o tema, a OMS argumentou que menos de 10% da população mundial apresenta anticorpos contra o coronavírus e que ainda é desconhecido o papel exato da imunidade celular no combate à Covid-19.
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No dia 21, a líder técnica da OMS, Maria van Kerkhove, afirmou que entender como a Covid-19 se comporta em crianças de diferentes faixas etárias, assim como controlar as transmissões comunitárias onde as escolas estão, são as principais questões na hora de decidir pela reabertura ou não.

 

 

A líder técnica da entidade alertou que a ciência precisa compreender melhor a transmissão e os efeitos da Covid-19 entre crianças pequenas, principalmente.

 

“Sabemos que há uma transmissão diferente de acordo com a faixa etária [infantil]”, afirmou. “Mas precisamos de mais pesquisas.”

 

No momento, cientistas da OMS, segundo a entidade, conduzem uma pesquisa com crianças em diferentes faixas etárias.

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