Pastor Anderson desconfiava de planos da família para matá-lo; foram ao menos 8 tentativas, aponta investigação


Promotor disse que ele recebeu mensagens em que uma das filhas afetivas sugeria que ele fosse executado por R$ 10 mil.

 

O pastor Anderson do Carmo, morto com mais de 30 tiros em Niterói em junho do ano passado, sabia dos planos da família para tentar matá-lo. De acordo com a polícia, antes do assassinato, houve ao menos oito tentativas frustradas, seis delas por envenenamento com arsênico ou cianeto. A família tentou ainda forjar dois latrocínios – roubo seguido de morte –, que acabaram não sendo levados adiante pela quadrilha.

 

 

Nesta segunda-feira (24), a deputada Flordelis (PSD-RJ), viúva de Anderson, foi apontada como a mandante do crime – ela nega. A Polícia Civil do RJ e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) prenderam oito pessoas, entre elas, estão cinco filhos e uma neta de Flordelis – ela não pôde ser presa por causa da imunidade parlamentar.

 

 

Com as tentativas frustradas de envenenamento com arsênico, duas filhas adotivas do casal, Marzy e Simone (presas na operação desta segunda), teriam passado a fazer buscas na internet e compraram cianeto.

 

 

Ainda segundo o MPRJ, como o pastor teria começado a desconfiar, a partir de abril de 2019 os familiares passaram a planejar a execução a tiros.

 

“Quando foi em março ou abril de 2019, apareceu no IPad dele, escrito por Marzy, incitando Lucas a matar o pastor por R$ 10 mil. E de alguma forma, acredito que por sincronização, essa mensagem apareceu no tablet do pastor”, explicou o promotor. Uma testemunha importante, segundo Sérgio, teria avisado a Anderson que o texto não parecia ser de autoria de Marzy, e, sim, de autoria de Flordelis. “Ele, pelo jeito, não acreditou”.

 

 

“Ele tomou ciência e não acreditou”, resumiu o delegado Allan Duarte, da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí.

 

 

Resumo

O pastor Anderson do Carmo de Souza – marido da deputada federal Flordelis – foi executado com mais de 30 tiros na madrugada de 16 de junho de 2019, pouco depois de chegar em casa, em Pendotiba, Niterói.
O inquérito concluiu que Anderson foi morto por questões financeiras e poder na família – o pastor controlava todo o dinheiro do Ministério Flordelis, hoje rebatizado Comunidade Evangélica Cidade do Fogo.

 

Flordelis é uma das 11 pessoas denunciadas pelo MPRJ.
Após o crime, Flordelis relatou em depoimento e à imprensa que o pastor teria sido morto em um assalto.

 

A deputada vai responder por cinco crimes: homicídio triplamente qualificado (por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima), associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso e tentativa de homicídio (pelo envenenamento).

 

Objetivo era forjar latrocínio

A princípio, Flordelis teria, segundo as investigações, pensado em forjar um latrocínio (roubo seguido de morte). Um “racha” na família, no entanto, atrapalhou os planos.

 

“Ela tentava jogar para o Lucas (preso na primeira fase da investigação) a execução; e jogar como mandante os dois filhos que resolveram sair da Igreja e falar a verdade”, explicou o promotor Sérgio Luiz Pereira Lopes.

 

 

Segundo as investigações, uma tentativa de matar Anderson do Carmo teria sido na saída de uma concessionária na Barra da Tijuca. A outra seria na saída de uma igreja evangélica da denominação da qual Anderson e Flordelis faziam parte.

 

 

“A gente tem testemunhas que duas outras tentativas foram arquitetadas antes dessa data e só não ocorreram por circunstâncias alheias à vontade dessas pessoas”, disse o delegado Allan Duarte, da Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo, responsável pelo caso.

 

 

As informações foram reveladas em escutas divulgadas pelo RJ1.

 

Na concessionária, Anderson foi comprar um veículo. Segundo Allan Duarte, ela pediu que o executor simulasse um latrocínio e não atingisse as demais pessoas que estavam no veículo com o pastor. “Nós temos provas cabais de que ela se cercou de cautelas para isso”, disse ele.

 

 

O crime só não aconteceu, segundo Allan Duarte, porque um outro familiar estava junto com o pastor no carro quando ele foi à concessionária.

 

 

Segunda tentativa de homicídio

O segundo caso foi através de uma neta de Flordelis, Rayane, presa na operação em Brasília. Uma pessoa, segundo o delegado, foi até a igreja cobrando o valor de R$ 2 mil para matar o pastor.

 

 

“Esses R$ 2 mil foram pagos a esse homem, a mando da Flordelis. A pessoa que entregou esse dinheiro foi o André, que foi preso também”, explicou.

 

O assassinato só não aconteceu porque Anderson trocou de veículo para deixar a igreja. “Isso criou uma confusão no executor”, explicou o delegado. O motivo teria sido um problema mecânico no carro que o pastor normalmente utilizava.

 

Histórico violento

Flávio, um dos presos pela execução do pastor, tinha um histórico extremamente violentos segundo as investigações. A ex-esposa de Flávio, Tatiana, foi até a delegacia e disse que foi ameaçada por Flávio.

 

“A ex-esposa de apresentou fotos na delegacia, em que ele mandava foto de uma pistola e alguns cartuchos. Ele dizia: ‘algumas aqui são para você’”, disse o promotor.

 

Durante as buscas e apreensões, o Ministério Público descobriu que ele estava fazendo um curso sobre como atirar com pistolas, que foi inclusive a arma utilizada para cometer o crime.

 

Flordelis não pode deixar o país

Segundo determinação da juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce, a deputada não pode se ausentar do país sem autorização judicial ou transferir sua residência para outra cidade. Ainda segundo a magistrada, Flordelis está proibida de manter contato com qualquer testemunha ou com os outros réus.

 

“Afastada a possibilidade do decreto prisional por força da imunidade constitucional, resta a possibilidade de decretação de medidas cautelares diversas da prisão, que igualmente visam a resguardar a ordem pública e garantir a conveniência à instrução criminal, de forma a garantir a regularidade do processo”, diz a decisão.

 

 

Sete filhos presos

Veja, abaixo, quem são os filhos de Flordelis presos:

 

Com a Lucas 12, chega a sete o número de filhos presos no caso. Todos já são réus perante a Justiça.

Nesta segunda, foram presos cinco filhos do casal (Adriano, André, Carlos, Marzy e Simone) e uma neta (Rayane).

A Justiça ainda emitiu mandados de prisão contra dois homens que já estavam na cadeia: o filho apontado como autor dos disparos (Flavio) e um ex-PM (Marcos).

Um sétimo filho (Lucas), que já tinha sido preso por conseguir a arma, foi denunciado na Lucas 12.

A defesa de Flordelis se disse “surpresa com a prisão”. “A deputada está muito aborrecida e chateada com tudo que está ocorrendo porque tem com ela a inocência”, disse o advogado Anderson Rollemberg (leia mais abaixo).
O que diz a defesa da deputada

 

A defesa de Flordelis se disse “surpresa com a prisão”. “A deputada está muito aborrecida e chateada com tudo que está ocorrendo porque tem com ela a inocência”, disse o advogado Anderson Rollemberg

 

A jornalistas na delegacia, o advogado Anderson Rollemberg disse ter ficado surpreso.

 

“A defesa foi surpreendida com essas prisões preventivas das cinco filhas da deputada e da neta. Tomaremos conhecimento do que há de indícios para que essas prisões fossem feitas e para o indiciamento da deputada, já que na primeira fase da investigação, passou longe de qualquer prova que a apontasse como mandante”, afirmou.

 

 

Segundo o advogado, Flordelis não tinha ingerência sobre o dinheiro da família. “Ela é cantora gospel, líder religiosa e parlamentar federal. A questão dela sempre foi dar o melhor para os necessitados. Por isso tinha mais de 50 filhos. Na opinião da defesa, está havendo um grande equívoco no desfecho desta investigação”.

 

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