Médicos e enfermeiros mostram a rotina em CTI de Covid-19 no RJ; equipe fica até 6 horas sem água


A pedido do RJ1, profissionais da Saúde registraram plantão no Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói. ‘Trabalho é árduo, muito desgastante’, diz chefe de unidade.


O trabalho em leitos intensivos de Covid-19 vai muito além de verificar respiradores em pacientes entubados.

 

Internados precisam de atenção permanente, e o cuidado passa por medicamentos, por hemodiálise — que em alguns casos é ininterrupta — e até pela posição do corpo.

 

A essa rotina se somam a assepsia em cada gesto, a obrigação de usar pesados paramentos e a quase inexistência de intervalos. Há jornadas de até seis horas sem poder beber água ou ir ao banheiro.

A pedido do RJ1, médicos e enfermeiros registraram um plantão no CTI do Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói, na Região Metropolitana do RJ.

 

No RJ, segundo o boletim do domingo (17), o estado chegou a 2.715 mortes, 22.238 casos e 17.557 recuperados.

 

Tulio Possati de Souza, chefe da Unidade de Cuidados Intensivos do hospital, conta que no Antônio Pedro há 12 leitos para pacientes graves de coronavírus — todos estão ocupados.


Diálise permanente
Tulio explica que pacientes graves “necessitam de suporte avançado de vida”. “Esse suporte muitas das vezes não se restringe só à ventilação mecânica”, frisa.

 

“Muitas das vezes outros órgãos do paciente entram em colapso”, continua o chefe.

Os rins, por exemplo — e a hemodiálise pode ser contínua, 24 horas por dia, com pequenos intervalos.

 

Punção profunda
Todo paciente que precisa ser entubado tem que passar por uma punção profunda — quando um cateter é ligado às veias principais.

 

“O acesso venoso profundo vai ou na jugular, ou na subclave ou na femoral. Segue até a veia cava superior, próximo ao coração”, descreve Tulio.

 

O caminho até lá é monitorado com ultrassom.

“A gente pode infundir uma série de medicamentos, como antibióticos, sedação, remédios pra controlar pressão… isso tudo de maneira simultânea”, explica.

Posição de cuidado
No CTI, não só a tecnologia — como a das bombas infusoras — é de grande valia. No combate à Covid-19, conhecimentos antigos são essenciais.

 

A equipe de Tulio tenta manter por até 16 horas no dia os internados de bruços, em uma posição que os médicos chamam de prona.

 

“A prona é estudada desde a década de 70. Temos estudos recentes que mostram que ela muda a mortalidade em quem está com Síndrome da Angústia Respiratória Aguda grave”, ensina Tulio.

 

Essa posição, prossegue, pode melhorar a oxigenação de alguns pacientes e liberá-los dos respiradores.

 

“Você libera área de colapsos pulmonares em regiões posteriores. A própria mudança de posição do coração. Enfim, você consegue oxigenar outras áreas do pulmão”, resume.

 

Casal unido no CTI e na Covid-19
Angelo Boaretto e a mulher, a enfermeira Denise Boaretto, voltaram a trabalhar juntos depois de 10 anos por causa da Covid-19.

 

“A gente se conheceu há uns 15 anos, trabalhando na ambulância do Samu”, lembra Angelo.

De lá para cá, um casamento e três filhos.

“Isabela vai fazer 12 anos agora em junho, Pietro vai fazer 10, e o menorzinho, o Lucas tem 4”, enumera o médico.
Os pais não os veem há dois meses — o trio está com parentes, no interior do Rio —, desde que começaram a trabalhar.

 

Angelo e Denise pegaram Covid-19. “Há um mês eu me infectei. Ela apresentou sintomas uns quatro dias depois. A gente ficou, cada um isolado, em casa durante 15 dias”, lembra Angelo.

 

No CTI, em meio aos sons ininterruptos das máquinas de suporte à vida e sob os paramentos, eles trocam diálogos por gestos.

Dias ruins

Tulio lembra um dia em que o Antônio Pedro teve quatro óbitos.

“O esposo de uma das pacientes mortas estava no hospital. Uma profissional do nosso setor lhe entregou os pertences numa sacola plástica, com identificação, e seguiu para ficar em quarentena em casa”, conta.

Dias bons
Seu Silvio Ribeiro dos Santos venceu o coronavírus — e foi tratado por amigos. Ele é técnico de enfermagem do Antônio Pedro.

 

“Eu fiquei muito feliz quando a médica entrou e perguntou: ‘Quer ir embora para casa?’ ‘Claro que eu quero!’ ‘Então tô te dando alta hoje’”, narra.
Desgaste
Denise afirma que os plantões são sempre muito pesados.
Tulio lembra que a rotina não acaba quando encerra o expediente no hospital.

 

“Eu entro pela cozinha, não tenho contato com meus filhos, tomo banho. Começo a interagir de fato só depois que tiro toda a roupa que eu trouxe do hospital”, conta.

Angelo e Denise se agarram na fé.
“Eu também tenho fé que Deus vai enumerar nesse sentido de ter mais esperanças”, emenda o intensivista.


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