Hospitais particulares do RJ estão com 90% dos leitos de UTI ocupados; associação prevê colapso em menos de 15 dias


Diretor da Associação dos Hospitais do Estado do Rio de Janeiro (AHERJ) acredita que a única saída diante do colapso das redes pública e privada será a contratação de leitos em outros estados.


“Tal qual na rede pública, também haverá insuficiência de leitos nos hospitais particulares. E sem alternativas para internação destes pacientes, é muito provável que o Rio de Janeiro necessitará contratar leitos nas cidades próximas e as operadoras de planos de saúde, precisarão montar uma rede de apoio intermunicipal e até interestadual, para descomprimir a carência de leitos e evitar um colapso total no sistema de saúde.”

 

O levantamento feito pelo Dr. Alvim avaliou números dos primeiros dias do mês de maio e encontrou uma taxa de incidência de 4,06 novos casos por 100 mil pessoas a cada 24 horas.

 

Já a taxa de contágio, ou seja, do número de pessoas que são infectadas a partir de uma única pessoa com o vírus, foi estimada em 3,91.

Atualmente, a rede hospitalar do estado, de acordo com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), possui 8.224 leitos de UTI adulto para tratar a Covid-19.

 

Colapso aumentará o número de mortes
O G1 ouviu professores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), responsáveis pela coordenação de grupos de pesquisas sobre a Covid-19. Todos concordam com a previsão de colapso na rede de saúde do RJ.

Para Eduardo, que também estuda a importância do isolamento social na prevenção de mortes, o número de casos confirmados da doença a cada 24 horas ainda não chegou em seu ponto máximo.

 

“De acordo com as previsões, o pico deve acontecer no final de maio, isso para o Brasil todo. O que é muito preocupante, porque quando os hospitais ficam lotados a letalidade da doença aumenta”, projetou o professor.
Outro especialista em dados da Covid-19, o professor de estatística Wilson Calmon, que coordena o portal de dados sobre o Covid-19 da UFF, acredita ser possível ver os números de casos da doença dobrarem em menos de 10 dias.

 

Para ele, a explicação para esse fenômeno é o grande número de pessoas esperando para receber os resultados de exames de testagem da Covid-19.

 

“Se a maioria dos casos forem confirmados, vamos ter uma explosão desse número. É até natural que isso aconteça”, disse Calmon.

 

Números representam o passado
O professor de estatística da UFF fez questão de lembrar que em uma epidemia sempre estamos olhando para o passado. Ou seja, os números revelados hoje, representam informações antigas.

 

Segundo Calmon, é preciso considerar nessa conta as variáveis, como adesão às medidas de isolamento social, maior número de pessoas testadas e a precisão nas notificações. Se todos esses pontos forem negativos, o aumento de casos pode ser ainda maior.

Importância do ‘lockdown’
A partir da próxima segunda-feira (11), a cidade de Niterói, na Região Metropolitana do RJ, entrará em um período de isolamento social rigoroso, identificado pelo termo em inglês ‘lockdown’, que significa fechamento total.

 

Entenda o que é lockdown
Nesses casos, as pessoas do município só serão autorizadas a sair às ruas para serviços essenciais. Em Niterói, quem for pego descumprindo as determinações será multado em R$ 180.

 

O Governo do RJ também já vem elaborando uma proposta para decretar o ‘lockdown’ para o estado.

 

Na opinião dos especialistas, o isolamento total é inevitável no Rio de Janeiro para tentar conter o crescimento do número de casos nas próximas semanas e desafogar o sistema de saúde.

 

“O lockdown total, inevitavelmente, vai acabar acontecendo no Rio de Janeiro. Não vamos ter como escapar disso nas próximas semanas”, concordou Eduardo Lima, professor da UERJ.

 

O pesquisador também lembrou da estratégia de isolamento vertical, quando seguimentos da sociedade são autorizados a sair às ruas e o confinamento se restringe a alguns grupos.

 

“No momento crítico que estamos, só o isolamento social rigoroso vai trazer o resultado que a gente precisa. Muito se fala do isolamento vertical. Na minha opinião, isso não funciona por um motivo simples. Nós estamos vendo muitos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde, muito bem treinados, com conhecimentos de higiene e proteção, sendo contaminados pelo vírus. Então como vamos esperar que um jovem vai sair para trabalhar normalmente e quando chegar em casa vai conviver com outras pessoas, possivelmente de terceira idade, sem transmitir a doença?”, questionou Eduardo.

Rastreamento dos casos
Medidas mais rigorosas como o “lockdown” são eficientes para conter o avanço da doença, mas são difíceis de serem mantidas por longos períodos de tempo.

 

O professor Wilson Calmon aposta que uma solução para depois do “lockdown” será o rastreamento dos casos. Segundo ele, essa técnica permitiria identificar todos os doentes e aqueles que tiveram contatos com as pessoas infectadas. Dessa forma, existiria um grupo reduzido que deveria ser isolado, facilitando a aplicação de testes e também diminuindo os prejuízos de manter toda a população em suas casas.

 

“Nesse cenário, o rastreamento é uma porta para a gente sair do ‘lockdown’. Em algum momento as pessoas vão ter que voltar e por isso a importância da estratégia de rastreamento de casos. É um controle rigoroso para saber onde o vírus está. Mas essa estratégia dá trabalho. Temos que mapear os casos confirmados, entrar em contato com cada caso e estabelecer uma rede de contatos com essas pessoas. Depois de organizar essa quantidade grande de informação, ai sim, estudar como liberar as pessoas, saber quais bairros são mais críticos, se existe foco da doença. Pensar políticas públicas”, orientou Wilson Calmon.

Evoluindo com a pandemia
Depois de mais de dois meses do início do período de isolamento social, muitas pessoas se perguntam quando voltaremos aos hábitos que tínhamos antes da crise de saúde.

Perguntado sobre isso, o professor Calmon respondeu que uma das coisas que ele espera como consequência da pandemia da Covid-19 é que todos evoluam com os ensinamentos trazidos pela doença.
“Seria uma pena que, depois disso tudo, largássemos as preocupações com a higiene. Todo ano morre gente por problemas de higiene”, afirmou Calmon. “O Rio sempre sofreu com isso. São hábitos individuais que não damos valor, mas que fazem com que as pessoas demandem mais de um sistema de saúde já precário”.

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