Profissionais de saúde do RJ reclamam de trabalhar com sintomas da Covid-19 sem teste
Eles contaram que, muitas vezes, recorrem a clínicas particulares para fazer exames. Rede estadual de saúde tinha 1.169 profissionais afastados e 12 mortos até segunda.
Em meio à pressão de trabalhar no combate à pandemia, muitos profissionais de saúde têm reclamado de terem que trabalhar com sintomas da Covid-19 e com a dúvida se estão ou não infectados.
Muitos hospitais não têm feito testes porque alegam que a prioridade é testar pacientes com sintomas graves da doença.

Uma enfermeira do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), em Laranjeiras, diz que estava trabalhando há mais de cinco dias com falta de paladar, de olfato e com cansaço físico, e que não havia sido encaminhada para fazer o teste.
Um outro profissional do local disse que o hospital avalia mudar o protocolo de testagem e afastamento após mais funcionários apresentarem falta de olfato e paladar.
“Somente em um único dia, foram cinco funcionários indicando perda de olfato e paladar. Agora, estão querendo afastar quem está com esses sintomas e tem comorbidade.”
O mesmo dilema acontece com um técnico de enfermagem de um hospital particular em Copacabana que tem apresentado sintomas da doença– sem teste e sem licença médica.
“Alguns dias são bem piores que os outros. Já trabalhei com febre, sem força. Sei que se eu me afastar, os pacientes vão ficar sem a minha ajuda. Eu só queria saber se estou com coronavírus para proteger ainda mais minha família, mas dizem que os testes são prioridade de quem interna”, contou.
Procurado, o Instituto Nacional de Cardiologia informou os testes são realizados assim que profissionais apresentam sintomas e todos são afastados do trabalho.
“Alguns por períodos de 14 e outros até 21 dias. Os resultados são disponibilizados entre 12 a 24 horas dependendo apenas da leitura das placas. Até o presente momento já foram testados 303 funcionários que apresentaram sintomas relacionados à Covid-19. O INC tem um corpo de 1.800 funcionários. Hoje, temos capacidade para testar até 42 funcionários por dia conforme protocolo interno do INC. Em breve, temos previsão de aumento de capacidade de mais de 50 testes por dia”, explicou o Instituto através de sua assessoria.
Gastos com testes pagos em clínicas e laboratórios
Em uma unidade de saúde pública na capital, profissionais também não estão sendo testados com frequência.
“Lá não tem testes para a gente. Só quem fica com sintomas, muito mal, consegue ser testado. Eu estava com sintomas, mas tive que pagar o teste particular, que é bem caro, nem todos podem pagar”, reclamou uma enfermeira, que diz que gastou quase R$ 300 para fazer o exame.
Situação crítica no interior
Em conversa com o G1, a Enfermeira Rejane, vice-presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), revelou que muitos profissionais com mais de 60 anos e os com comorbidades também não estão recebendo os cuidados necessários.
“Não tem isso de afastamento, nem com Covid confirmada. Profissionais com mais de 60 anos, outros com comorbidades estão trabalhando normalmente. Soube através de denúncias que no Pedro Ernesto mandaram todo mundo que estava afastado voltar. No Souza Aguiar, os profissionais estão sendo dizimados. Em Cabo Frio, ainda aumentaram a jornada de trabalho”, revelou.
Segundo a parlamentar, a situação é ainda mais crítica nos municípios do interior. “Em hospitais e Santas Casas têm muitos profissionais doentes que não conseguem se afastar. O número de profissionais infectados no dia a dia do estado é bem diferente do que está sendo noticiado. A rede privada, então, não passa nada de informação”, completou.
Rede estadual tem 1.169 afastados e 12 mortos
A Secretaria de Estado de Saúde informou que, até a noite de segunda-feira (27), 1.169 profissionais de saúde da rede estadual estavam afastados do trabalho por suspeita ou confirmação de coronavírus nas seguintes unidades:
Hospital Estadual Adão Pereira Nunes – 168
Hospital Estadual Alberto Torres – 175
Hospital Estadual Anchieta – 12
Hospital Estadual Azevedo Lima – 111
Hospital Estadual Carlos Chagas – 145
Hospital Estadual Getúlio Vargas – 119
Hospital Regional do Médio Paraíba – 5
Hospital Estadual Roberto Chabo – 19
Instituto Estadual do Cérebro – 19
UPAs (30 unidades) – 396
O número representa 6% dos profissionais que atuam nas unidades estaduais. A SES também informou que foram registrados 12 óbitos de funcionários por coronavírus. De acordo com os dados do Cremerj, 11 médicos do estado morreram vítima da doença.
Sobre a falta de testagem e afastamento de profissionais com sintomas, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) esclareceu que os casos graves, óbitos e os profissionais da saúde e segurança formam o grupo prioritário para testagem de Covid-19 no estado.
“A Secretaria informa que segue o protocolo que determina o afastamento de profissionais de saúde do trabalho ao apresentarem sintomas suspeitos da doença”, dizia a nota.
