Um ano após tragédia no Ninho, famílias reclamam da falta de diálogo: “Flamengo vê como despesa”


No próximo sábado, dia 8 de fevereiro, a maior tragédia da história do Flamengo completa um ano. Após um incêndio no alojamento das divisões de base durante a madrugada, dez meninos morreram e três ficaram feridos. Depois de 12 meses, o clube chegou ao acordo de indenização com apenas três famílias (além do pai de um dos garotos). (Veja a reportagem do Esporte Espetacular no vídeo acima)

O clube acertou um valor com as famílias de Athila, Gedinho, Vitor Isaías e Rykelmo (deste apenas com o pai). A mãe de Rykelmo, Rosana de Souza, foi a única a entrar na Justiça com o pedido de R$ 6,9 milhões. Os outros pais ainda aguardam negociação com o Flamengo, embora digam que não há diálogo aberto.
– Que retorno esses meninos vão dar? Nenhum. Eles se foram. Acho que o Flamengo os vê como uma despesa – disse Marília Barros, mãe do zagueiro Arthur, um dos mortos no incêndio.

Procurado pela reportagem, o Flamengo preferiu não se manifestar. No sábado, o clube publicou vídeo em que o presidente Rodolfo Landim, o vice geral e jurídico, Rodrigo Dunshee, e o CEO Reinaldo Belotti responderam a perguntas feitas pela Fla TV. Landim disse estar aberto a fazer acordo com as famílias, mas garantiu que o clube não vai aumentar a oferta aos parentes.

– O clube esteve sempre aberto a negociação, mas, depois de muito discutir internamente, nós estabelecemos um teto. Nós estamos dispostos a dentro desse teto discutirmos com as famílias, tentarmos adaptar a cada necessidade específica de família, uma forma de atendê-los dentro daquele teto estabelecido pelo clube.
No início, o Ministério Público e a Defensoria do Estado do Rio de Janeiro mediaram as conversas, mas não houve acordo porque o valor oferecido pelo Flamengo não agradou. Em outubro, a Justiça do Trabalho indeferiu o pedido de Tutela de Urgência do MP para penhora de R$ 100 milhões para garantir o pagamento das indenizações. O juiz, no entanto, extinguiu o processo, indicando que o tema seja resolvido na área cível.

Logo após a tragédia, o Flamengo se prontificou a pagar a quantia mensal de R$ 5 mil para as famílias. Em dezembro, o Tribunal de Justiça do Rio concedeu uma liminar determinando que o valor fosse de R$ 10 mil mensais até que o processo seja julgado de forma definitiva.

– É uma negociação difícil porque ela é extremamente desigual. É um clube grande que, se quiser, tem 20 anos para pagar contra famílias que não sabem negociar, que têm um departamento jurídico e nem blindagem emocional – destacou Cintia Guedes, coordenadora cível da Defensoria do Estado, e que participa da mesa de negociações pelas indenizações.

Os outros 16 atletas que estavam no CT no dia do incêndio foram indenizados, inclusive os três feridos, Francisco Dyogo e Cauan e Jhonata.

O que dizem as famílias das vítimas:

Marília Barros, mãe Arthur Vinícius, de 14 anos
– Não fizemos acordo. Houve uma reunião no MP em fevereiro. Tentamos e não conseguimos. Em maio, recebi uma ligação de uma pessoa que se dizia advogado do Flamengo. Ele disse que ia entrar em contato com meu advogado, mas não entrou. Então, não fiz acordo.

– É um descaso desde a época. Eu penso assim: que retorno esses meninos vão dar? Nenhum. Eles se foram. Acho que o Flamengo os vê como uma despesa. Sabemos que no futebol o que interessa é o retorno. Qual foi a responsabilidade que o Flamengo teve com essas crianças? Com os pais? Nenhuma. Vejo como descaso essa falta de contato.

– Eu gostaria de fazer um acordo. Queria resolver isso. Não quero essa pendência na minha vida. As pessoas às vezes não têm noção… falam que estamos querendo receber dinheiro com a morte do filho. Eu vivo isso… nenhum dinheiro paga a vida do meu filho. Mas eu queria mais dignidade. Quando pego esse dinheiro todo mês (ajuda mensal), eu choro. Porque meu filho não está aqui.
Rosana de Souza, mãe de Rykelmo, de 16 anos
* Única a entrar na justiça contra o clube

– Dizem que estão abertos para negociação, mas não estão. Querem vencer pelo cansaço. Ele (seu ex-marido) foi lá… o Flamengo creio que aproveitou da fragilidade e deu a quantia. Falou assim: é mais um que estou acertando. Dei toda liberdade para minha advogada (Gislaine Nunes). Creio que vou conseguir. Não vou desistir. Sei que fui a única família que entrou com a ação, mas eu não tinha mais como conversar com o Flamengo. Ele falou não e colocou ponto final. Não tenho que aceitar.

– Só queremos os direitos dos meninos, o que é nosso. Ninguém quer ficar milionário às custas do Flamengo. Não queiram essa pensão… é doloroso demais. Eu preferia meu filho aqui. Ele veio em um caixão lacrado e eu não o vi. Não vi nem meu filho descer na sepultura.

– Espero que sejam mais humanos um pouco e pensem no sofrimento. Quando isso se resolver, será um sofrimento a menos para nós. Agora que eles se foram, para eles não valem nada. Não tem sentimento algum. Tinham meninos que iam para Seleção. E agora? O Flamengo não vê isso? Não vê o nosso sofrimento? Será que eles não têm família, não têm filho, não têm neto? Pois eu entreguei meu filho ao Clube de Regatas do Flamengo.

– Quero que alguém pague pelo erro, porque houve falha. Alguém é culpado. Eu dei meu filho para o Clube de Regatas do Flamengo. Achava que iam cuidar. Quero justiça. Quero resgatar pelo menos o que é de direito do Rykelmo. Ele tinha sonhos, projetos. O sonho deles foi queimado.

– Não lembro se foi em junho ou julho que não recebi mais (ajuda mensal). A quantia que o Flamengo diz que paga para as famílias, eu não recebo. Não sei o motivo.

Cristiano Esmério, pai de Christian Esmério, de 16 anos
– Vai se completar um ano e o Flamengo ainda não deu satisfação às famílias. Como não deu no dia do incêndio. A nossa família não foi procurada.

Andréia de Oliveira, mãe de Christian Esmério, de 16 anos
– Esse ano sem o Christian eu não consegui segurar as lágrimas porque foi difícil. Esse ano sem ele ainda está sendo muito difícil. Para mim como mãe é como se fosse ontem. A dor é bem recente. É sobreviver um dia após o outro, tirar forças de onde não tem para se levantar e estar aí vivendo. Assim como ele nós temos outros filhos em comum que precisam da gente aqui, mas se eu pudesse escolher eu não estaria mais aqui também. Se eu pudesse escolher eu estaria com ele. E se eu pudesse escolher eu estaria no lugar dele.

– Sensibilidade é o que eles (diretoria do Flamengo) não têm. A gente não sabe o que se passa na cabeça deles. No dia do jogo com o Fluminense, quando teve a homenagem, eu estive frente a frente com o presidente e ele não veio me dar as condolências, não veio até mim para falar nada. Simplesmente olhou à distância.

– Hoje nossos filhos não têm mais importância para eles. Fazem de conta que nada aconteceu e seguem em frente. Não foi o filho de nenhum deles que queimou nas chamas. Hoje faço uso de antidepressivo porque, se eu parar, vem na mente o meu filho queimando naquelas chamas. É horrível.

Darlei Pisetta, pai de Bernardo Pisetta, de 15 anos
– Estão dando a ajuda financeira mensal, mas não houve acordo. Os advogados estão conversando. Nos deram assistência para ir ao Rio e voltar com o corpo. Estão dando assistência psicológica, custeando o tratamento aqui em Blumenau. A psicóloga do Flamengo também conversa com a gente toda semana.

– Tenho mágoa. Apesar dessa ajuda, acho que importante seria um abraço, o respeito. Isso a gente não teve da diretoria. Converso com o pessoal do RH, com a psicóloga e outros profissionais da base que ficaram amigos. Mas da diretoria, só trocamos uma palavra ou duas no dia do acidente. Esse aconchego faltou, essa humanidade, esse respeito com as famílias.

Uelisson Cândido, pai de Pablo, de 14 anos
– Não fizemos acordo. Só fizemos uma reunião em fevereiro, e de lá para cá nenhum telefonema por parte do Flamengo. Zero. Não tem relação nenhuma. Dia dos pais, das mães, aniversário, natal, Ano Novo… Nos sentimos abandonados. Acham que estão fazendo muito, mas não estão.

– A única assistência é o dinheiro que depositam por mês. Não tivemos nenhum acompanhamento médico e psicológico. Não tivemos nada.

Alba Valéria Pereira, mãe de Jorge Eduardo, de 15 anos
– Eu queria que um dia eles me respondessem se dormem tranquilos pensando nesses 10 meninos que hoje poderiam estar aí e não estão. Porque a gente não dorme. Eu queria que pelo menos um dos diretores ou o presidente respondessem dormem com a consciência tranquila no travesseiro.

Wanderlei Sacramento, pai de Jorge Eduardo, de 15 anos
– Do Flamengo a gente espera que resolva isso o mais rápido possível, porque parece que nunca vai ter fim. O mais rápido que isso seja resolvido, mais paz a gente vai ter na nossa vida. O que não podia perder nós perdemos. A justiça tem que ser feita o mais rápido possível.

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