Milícias se unem e viram ‘força quase única’ na Praça Seca, Zona Oeste do Rio, substituindo o tráfico


A região da Praça Seca, na Zona Oeste do Rio, virou uma espécie de laboratório da milícia no estado. A Polícia Civil afirma que a união de grupos paramilitares desbancou o tráfico e passou a comandar as comunidades praticamente sem resistência.

O panorama hoje é bem diferente do de dois anos atrás, quando conflitos entre milicianos e traficantes pelo domínio dos morros do bairro eram quase diários.

O G1 apurou que hoje, na Grande Jacarepaguá, apenas a Cidade de Deus está sob o comando do tráfico.

Por trás dessa tática está Wellington da Silva Braga, o Ecko, herdeiro da Liga da Justiça e apontado hoje como o chefe da maior milícia do RJ.

Segundo Gabriel Ferrando, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), Ecko comandou a costura entre diferentes grupos paramilitares, com vistas a uma força “quase única” no Estado – o que deixa o combate ao grupo mais difícil e complexo.
Segundo ele, a Praça Seca foi um grande exemplo dessa união. “Foram arregimentados esforços de vários locais para fortalecer a invasão, e fortalecer [o Morro da] a Covanca contra a invasão de traficantes do Complexo do Lins pela mata”, afirmou.
A Favela da Covanca é uma das comunidades que cercam a Praça Seca – que dá nome ao bairro. Do mesmo lado ficam os morros da Barão e Bateau Mouche; do lado oposto está a Chacrinha.
Denúncia do MP cita ‘plantão’
Na última sexta-feira (30), o RJ1 mostrou que as cobranças de taxas de segurança aumentaram na região – 21 milicianos foram denunciados pelo Ministério Público do Rio. O grupo utiliza de violência para coagir moradores e comerciantes, segundo a denúncia, baseada em investigações da Draco.

A situação ocorre mesmo depois das prisões de líderes históricos do grupo, como o ex-PM Orlando Oliveira de Araújo , o Orlando da Curicica, e Horácio de Souza Carvalho, o Horácio. Muitos dos novos integrantes da milícia são ex-traficantes.

Uma das provas dessa união é o deslocamento comprovado de milicianos para diferentes locais do Rio em caso de necessidade. Homens podem ser acionados para a Praça Seca, na Zona Oeste, ou para cidades da Baixada Fluminense quando há necessidade de reforço, inclusive nos “plantões”, segundo Ferrando.
A Tijuquinha é, juntamente com Muzema e Rio das Pedras, dominada por uma milícia na Zona Oeste. Na Muzema, dois prédios desabaram em abril, matando 24 pessoas. Centenas de prédios na região foram feitos por construtores e vendidos por corretores ligados à milícia. A exploração imobiliária é uma das vertentes mais lucrativas do grupo na região.

Em 2018, o G1 publicou a série Franquia do Crime, que revelou, em levantamento inédito, que 2 milhões de pessoas viviam sob domínio da milícia no Rio de Janeiro e na Região Metropolitana. A guerra pelo controle da Praça Seca já era citada na época.
Moradores reagem
Entre março e agosto deste ano, mesmo sob ameaças, 12 moradores da Praça Seca decidiram procurar o Ministério Público e dar detalhes sobre a atuação do grupo paramilitar.

O RJ1 teve acesso exclusivo à denúncia e conversou com um dos moradores, que teve a identidade preservada. Segundo ele, milicianos passaram a cobrar uma taxa mensal de R$ 50 para a segurança da região.

Uma reunião chegou a ser marcada pelos moradores dos condomínios para decidir como iam pagar o valor cobrado pelo grupo criminoso.

“O porteiro nos avisou, disse que num dia de semana eles pararam na frente do condomínio, chamaram o porteiro e deram o recado pro porteiro, mandando avisar aos síndicos”, explica o morador
De acordo com a denúncia, além da taxa de segurança, a milícia oferece outros “serviços” aos moradores, que temem retaliações caso não queiram adquiri-los.

“Eu entendo que a cobrança não é por segurança, porque eles eles querem vender gatonet [internet e TV a cabo ilegais], vender gás, água, e deixar você refém deles”, explica um dos moradores do condomínio extorquido.

A cobrança feita aos comerciantes é ainda maior. Segundo as denúncias, alguns estabelecimentos foram fechados porque os vendedores não concordaram com o pagamento das taxas aos milicianos. O G1 apurou que até supermercados estão sendo cobrados na região, sob ameaça de fechamento caso não paguem as taxas.

Print Friendly, PDF & Email

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.