Copo e sacola encontrados no intestino de tartaruga-verde mostram os riscos de poluir a água com plástico


Imagens inéditas da necropsia de uma tartaruga-verde que morreu após encalhar em uma praia na costa brasileira hoje são usadas pelo biólogo Robson Guimarães dos Santos como forma de conscientizar a população sobre os riscos de jogar plástico no lugar errado. As imagens são fortes e foram feitas em 2012 como parte da pesquisa de doutorado de Santos, hoje professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

De acordo com o professor, uma tartaruga-verde juvenil só precisa ingerir meio grama de plástico para morrer. Elas o ingerem ao confundi-lo com alimento, e então o material obstrui o trato gastrointestinal dos animais. Isso quer dizer que a tartaruga fica impedida de comer e realizar outras funções fisiológicas, levando-a a um emagrecimento crônico e podendo prolongar o sofrimento por bastante tempo até ela morrer.

Foi o caso da tartaruga na imagem acima. A necropsia apontou a ingestão do plástico como causa da morte. Isso é comum no Brasil. A pesquisa de doutorado do biólogo, feita na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), avaliou 255 tartarugas-verdes encontradas mortas e encalhadas ao longo da costa brasileira de 2009 a 2013, e descobriu que em média 70% delas tinham ingerido plástico. Em alguns pontos do país, esse número chega a 100%.

De acordo com especialistas, a pesca acidental — quando o pescador lança a rede e pega acidentalmente animais que não tinha intenção — ainda é a principal causa de morte de tartarugas no Brasil. Mas é a ingestão de plástico a mais difícil de combater.

“A pesca pode ser regulada de um dia para o outro, mas o plástico não. Calcula-se que atualmente há 5 trilhões de fragmentos de plástico flutuando nos oceanos em todo o mundo”, diz o pesquisador.

Plástico e pesca acidental não são os únicos inimigos da vida marinha. A falta de saneamento básico, como mostram os dados levantados pelo G1 para o Desafio Natureza, volta a ser um problema demonstrado pelas tartarugas.

Da cidade para o mar
Não é difícil uma tartaruga marinha ingerir plástico que foi consumido no continente. Um estudo feito pela Associação de Educação Marinha, dos Estados Unidos, e publicado em 2015 na revista Science, avaliou dados de 2010 referentes a 192 países que têm alguma costa nos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, além do Mar Mediterrâneo e do Mar Negro.

O objetivo era avaliar como o lixo feito de plástico produzido em terra vai parar no mar. O resultado encontrado pela pesquisadora é que, naquele ano, a falta de gestão adequada do lixo fez com que 8 milhões de toneladas de plástico jogado fora fossem parar na água salgada.

Outros números sobre o plástico já são conhecidos: um copo leva pelo menos 200 anos para se decompor, já uma garrafa PET precisa de mais de 400 anos para desaparecer.

“A primeira grande escala industrial de plástico [em 1950] está até hoje no ambiente e ainda vai ficar aí pelo menos nos próximos 200 anos. Apesar de o governo ter grande responsabilidade pela gestão do lixo, é um processo cumulativo de difícil resolução em que o indivíduo tem mais importância na resolução”, afirma o professor Robson dos Santos, da Ufal.

Contaminação que volta ao homem
Mas se engana quem pensa que só as tartarugas se alimentam do plástico que é jogado fora de maneira inadequada. Como o homem faz parte da cadeia alimentar, o plástico que contamina a água e afeta a biodiversidade marinha chega também à nossa alimentação.

Em um relatório divulgado neste ano, a organização não governamental WWF (Fundo Mundial para a Natureza), afirma que a contaminação de macro, micro e nanoplásticos já atinge os solos, águas doces e oceanos. “A cada ano, seres humanos ingerem cada vez mais nanoplástico a partir de seus alimentos e da água potável, e seus efeitos totais ainda são desconhecidos”, diz o documento.

Para tentar mitigar o problema, o Ministério do Meio Ambiente lançou em março deste ano o Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar. A agenda do programa também abrange cinco outros temas: resíduos sólidos, recuperação de áreas verdes, qualidade do ar, saneamento e qualidade das águas e áreas contaminadas.

Canudo não é único inimigo
O Instituto Biota resgata e faz diagnóstico da causa da morte de animais que encalham nas praias do litoral de Maceió desde 2010. O presidente do instituto, Bruno Stéfanis, já foi surpreendido pelos objetos encontrados dentro dos animais: cotonetes, tecla de computador e até pedaço de placa de televisão estão na lista.

Para Bruno, eleger um vilão como o canudo plástico não ajuda a discussão sobre o tamanho do problema. Em 2015 viralizou o vídeo de uma tartaruga com um canudo atravessado na narina. A imagem do bicho agonizando de dor enquanto o objeto era retirado com um alicate movimentou uma “guerra anticanudo”.

“A gente não pode eleger um inimigo como o canudo e ir ao mercado e pegar a maior quantidade possível de sacola para trazer as compras. Temos de pensar no nosso consumo como um todo desse material”, diz Bruno.

A utilização de canudos é proibida em estabelecimentos comerciais desde julho de 2018 no Rio de Janeiro, desde 25 de junho na capital São Paulo e desde 13 de julho em todo o estado paulista. No estado de São Paulo a multa pode chegar a R$ 5,3 mil.
Falta de saneamento básico e tumores
O professor Robson utiliza as tartarugas-verde como “sentinela ambiental”. Isso quer dizer que, examinando a saúde das tartarugas, ele consegue aferir como está a qualidade ambiental de uma região.

Em Alagoas, essa qualidade é baixa, em parte porque 83,1% da população não tem coleta e tratamento de esgoto, segundo números de 2019 do Sistema Nacional de Informação Sanitária (SNIS).

Uma das consequências desse alto índice é o volume de dejetos que chegam aos rios e ao oceano, e que podem estar relacionados à fibropapilomatose, doença que provoca um tipo de tumor em tartarugas.

Pesquisadores do Laboratório de Biologia e Conservação da Faculdade de Ciências Biológicas da Ufal desenvolvem atualmente uma pesquisa que pretende investigar as causas dessa doença, e resultados preliminares apontam que a qualidade da água tem sua parcela nisso.

“Os tumores estão sempre ligados à degradação do ambiente costeiro e, em consequência, à qualidade da água. Quanto pior a qualidade, mais tumores. E quanto mais próximo de áreas urbanas, maiores são os problemas. Isso é decorrente da quantidade de população e baixos níveis de saneamento básico. A tartaruga-verde é diretamente afetada pela degradação da água”, afirma Robson.

O problema, segundo o pesquisador, é que estamos indo na direção oposta das soluções.

“A produção e uso de plástico continuam aumentando, e atualmente no mundo nós incineramos mais plástico do que reciclamos. O poder do indivíduo é maior na mitigação deste problema do que em outros casos, pois parte do problema deriva das nossas escolhas do dia a dia, mas nós também precisamos implementar políticas internacionais de combate à poluição por plástico”, diz Robson.

Para o pesquisador, em um nível individual, mais importante do que dar a destinação correta para o plástico que consumimos no dia a dia, é reduzir o consumo.

“A principal mensagem não é necessariamente jogar o lixo no lixo, mas, sim, reduzir o consumo. O plástico é muito difícil de ser manejado e até em lugares que têm uma boa gestão de resíduo sólido há grande poluição por plástico porque ele é leve e durável”, afirma.

Os dados corroboram essa hipótese: a cidade de São Paulo, que é a maior produtora de resíduos —tanto no volume total quanto na geração per capita — recicla apenas 3% do que coleta, segundo levantamento feito pela Associação das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Maceió recicla 3,41% do resíduo que coleta.

Além disso, segundo Robson, um caminho importante seria implementar um sistema de logística reversa para as empresas que produzem produtos que utilizem embalagem plástica, responsabilizando-as, assim, pela reutilização e destinação apropriada do resíduo.

“Como nós vamos lidar com este problema global nos próximos anos pode servir como um termômetro de nossas possibilidades de sucesso na mitigação dos demais problemas ambientais de escala global, como o aquecimento global e a crescente perda da biodiversidade”, conclui o professor.

Fonte:G1

 

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